Até o ar que ele respira é diferente.
Essa tênue sensação parece se desenvolver e se amarrar ao coração, fazendo-o pulsar mais fortemente. Ele está em outro lugar, e está deitado no chão. Está em algum lugar longe daquele que ele chama de lar. Mas isso, de forma alguma o deixa apreensivo. Pelo contrário, o faz se sentir bem e curioso. Com a mão esquerda, toca o chão: terra.
Abriu os olhos, e quando o fez, sentiu um pouco de dor por causa da luminosidade. Parecia ter ficado um longo período de tempo com os olhos fechados. As pupilas, antes dilatadas, se contraíram desesperadamente. Fez uma careta típica de quem recebe um facho forte de luz nos olhos, e levou uma das mãos ao rosto.
“Onde estou?”, foi a primeira pergunta que lhe ocorreu.
“O que é tudo isso?”, foi a segunda.
Sentou-se.
Sentado, com a visão ainda embaçada e rapidamente se restabelecendo, percebeu uma fortíssima cor vermelha a alguns palmos de seu rosto. Levou as mãos à fonte das cores e sentiu algo com uma textura extremamente suave, macia; um deleite. Eram rosas, muitas delas. Levantou-se.
Para a sua surpresa e para a surpresa de cada parte de seu corpo, que se arrepiou inteiro, havia não só um mar de rosas à sua frente, mas também, postas em fileiras quilométricas ao longo da planície, lírios, margaridas, girassóis, tulipas e dezenas de outros tipos de flores.
As cores eram tão fortes e inspiradoras, tão majestosas e poderosas, que teve a sensação de ser atravessado por elas. Era como se pudesse sentir tudo dentro dele tomando as cores das flores. O sangue corria mais rápido pelo corpo, fluía por cada pequena parte de seu organismo, e ele se sentiu vivo.
O vigor é, agora, companheiro do rapaz que admira as milhares de flores.
Respirando fundo e dando lugar para um enorme sorriso em seu rosto, o rapaz adentra o campo de flores. O estreito espaço entre uma espécie de flores e outra é o seu caminho. À sua direita, as rosas. À sua esquerda, as tulipas. Não parava de olhar para tudo aquilo sequer um segundo. O azul claríssimo do céu se chocava com o exército de cores que avançava à sua frente, e formava um inefável espetáculo ao qual invenção alguma do ser humano pode se igualar.
Pegou-se boquiaberto, ainda esboçando um sorriso, encantado com tudo aquilo.
Vez ou outra ele tocava nas flores e sentia uma doce energia.
O Sol se intensificava. O vento corria tranquilamente pela planície, fazendo com que os cabelos de uma pessoa que eventualmente passasse por algum campo florido dançassem em sincronia com as flores.
Nessas horas, os olhos se fecham. Abre-se mão de um sentido para que outros possam ser intensificados.
Talvez essa fosse a parte em que algum sentimento se encaixasse em seu coração, por um lado, e em sua alma, por outro, unindo os dois e se perpetuando, mesmo que essa eternidade não seja, realmente, eterna. É algo tão bom quanto ruim. Tão gostoso quando desagradável. Algo que vem quando falta outra coisa. Algo assim como a saudade.
Que sentimento interessante é a saudade…
Ela preenche com o vazio; cresce com a carência; se desenvolve com a distância. É boa, mas é ruim. Ao mesmo tempo em que conforta, por nos fazer lembrar de alguém, nos mata, por evidenciar aquilo que o coração de quem a sente não pode negar: você está distante de quem gostaria de estar perto. Quem já sentiu, sabe.
Ainda sentindo o vento no rosto, ainda de olhos fechados, o rapaz pensa além.
Se o sentimento de saudade é algo curioso, como se pode classificar a saudade de algo do qual você nunca esteve perto; de algo que nunca tocou; de algo que nunca viu com os próprios olhos? Pior ainda: como “sanar” essa saudade?
E pensar nisso foi o que o fez abrir os olhos e presenciar algo tão curioso quanto a saudade: Em um piscar de olhos o Sol se pôs e cedeu lugar à noite, à Lua e às constelações.
De onde estava, tinha uma amplíssima visão do céu. Deitou-se em meio às flores e seu silêncio. A solidão ali, sabia ele, limitava-se apenas ao campo físico do entendimento, pois em mente, coração e alma, ele estava mais do que bem acompanhado, e seus olhos refletiam isso: Seus olhos estavam diretamente direcionados à Lua, o belíssimo e lívido satélite natural do qual todos dispomos.
Levantou a mão direita em direção a ela, como se chamasse alguém para dançar. Sentiu outra mão tomando a sua e, de pé, começou a dançar.
Aquele que observasse apenas com a visão corriqueira da qual dispomos, veria um rapaz dançando sozinho em meio às flores, mas todas as flores sentiam a segunda presença naquela noite, e a Lua, lá em cima, os observava com olhos que não eram seus, mas sim daquela fonte de inspiração que habitava os sonhos do rapaz.
Autor: Rafael Mendes da Silva
É acho que voce conseguiu transmitir exatamente o que a saudade faz… Muito linda! (:
Cada texto seu que eu leio, tenho vontade de ler mais, e mais sempre!
Você escreve tão incrivelmente bem Rafa… Parabéns.
Perfeito. Como tudo aqui…
” Se o sentimento de saudade é algo curioso, como se pode classificar a saudade de algo do qual você nunca esteve perto; de algo que nunca tocou; de algo que nunca viu com os próprios olhos? Pior ainda: como “sanar” essa saudade? ” – Essa parte me fez chorar, realmente seu texto me tocou… além do esperado até. Mas foi uma sensação boa, obrigada Rafa