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Holding HandsIntrodução

 

 

Recentemente tive a idéia de fazer uma história composta por três capítulos, que serão postados semanalmente. Essa história tem como ponto de partida o fim do último post. Doce Sono de Anjo, onde o protagonista, após contemplar a beleza de seu amor – até então platônico – pula pela janela da casa dela e voa, podendo encontrar o Sol da manhã nascendo e iluminando a cidade.

Sobre o protagonista de todas as minhas histórias, posso dizer-lhes que é uma pessoa que ama ser romântica e ama falar coisas românticas; pensa de maneira diferente da maioria e vê beleza em tudo. Além disso, tem plena convicção de que não existe no mundo algo mais importante e delicioso do que o amor. Digo também, apesar de ser evidente, que sua inspiração, força, vontade de viver intensamente, e alegria constante deve-se ao fato de sua musa estar presente em sua vida.

Quanto ao seu amor, tento ser direto ao dizer que ela é única. Tem algo que a difere das demais. Algo inexplicável. Talvez uma simplicidade que, por incrível que pareça, atribui-lhe uma complexidade – positiva, é claro – que deixa seu amante tão intrigado e tão interessado que não pensa em nada além dela. Como pode alguém tomar-lhe tanta atenção? Ela é um constante mistério, o qual ele prefere ser envolvido a decifrar. Ela tem aqueles olhos que o tomam e o envolvem. Conseguem desarmá-lo, deixá-lo completamente entregue. Passaria horas a contemplá-los, sem que aquilo perdesse sua mágica. Volto a dizer, ela é única, e o deixa maravilhado. Pois nunca viu alguém como ela, e também duvida que algum dia ainda veja. Pois ela é os seus dias, suas tardes, suas noites e madrugadas. Verões, invernos, outonos e primaveras. Estrelas, planetas, constelações e galáxias. Acalento constante nas noites frias e solitárias; sonhos inspiradores de cada dia. Enfim, a plena beleza que todos os elementos mais belos da natureza podem ter, mas reunidos em uma só pessoa.

Agora que lhes foi esclarecido o rumo que a história tomará, com o adendo de descrições razoavelmente detalhadas dos dois pilares desse romance, apresento-lhes o primeiro capítulo dessa história. O capítulo que servirá de introdução a toda a aventura e a todo o romantismo. Espero que gostem.

~

Foi aquele Sol forte e revigorante que o fez atinar para uma idéia maravilhosa. Idéia essa que poderia ser realizada na noite daquele dia, dali a algumas horas, se tudo corresse como imaginado.

Tirou o cabelo do rosto enquanto voava. Estava bastante distraído, lembrando de quando contemplou sua musa dormindo. Voando cabisbaixo, com sua mente longe dali, não pôde perceber que estava se aproximando de outro edifício.

Estava quase voando janela adentro quando, em uma fração de segundo, desviou-se dela. Pôde até ver o vulto de alguma pessoa lá dentro. Será que ela o viu?

“Droga, que descuido…” Pensou consigo mesmo. “Preciso me esconder, não dá tempo de fugir.”

Hoje era seu dia de sorte. O prédio todo tinha pequenas varandas em cada apartamento, de modo que ele poderia se esconder. Escondeu-se na de baixo, que tinha as cortinas de suas janelas fechadas.

“Agora é só esperar um pouco. Só não posso ficar muito tempo aqui.”

Olhou para as cortinas fechadas com grande receio. Esperando que a qualquer momento uma dona de casa saísse para apreciar a manhã e, dando de cara com um rapaz em sua varanda, gritasse escandalosamente.

Então, após cerca de 30 segundos, que pareceram 10 minutos e injetaram-lhe adrenalina no sangue, tomou impulso e voou como uma bala para longe. Em 5 segundos já estava bem longe do prédio, da sacada, e do medo.

Esperou a adrenalina baixar e levantou vôo até acima das nuvens. Quando só via um mar de nuvens ao seu redor, onde não podia sequer ver o chão, parou, cruzando os braços e pensou em como realizar sua idéia. Fazia uma cara de pensativo que o deixava parecendo um presidente de uma superpotência decidindo sobre os rumos de uma guerra, tamanha era a sua concentração. Afinal, pensava em algo que traria sorrisos à sua musa. E guerra nenhuma era mais importante que ela. E, aliás, nada era mais importante que ela.

E então, durante alguns minutos ele ficou ali, postura ereta, pernas juntas, braços cruzados, cabelo dançando ao vento, olhar compenetrado, o Sol batendo no lado direito de seu rosto. Quando viu que o que desejava era possível, mirou um local nas nuvens e, novamente, meteu-se por elas como uma bala, deixando um furo no céu, por onde feixes de luz passaram.

~

De volta à sua casa, trocou de roupa e esperou até as 11 horas. Quando essa hora chegou, foi até onde ela estudava, e esperou ansiosamente pela sua saída.

Quando ela finalmente saiu, sua imagem novamente fez seu coração palpitar, e lembrou-se que, poucas horas atrás, a vira dormindo, submersa em sonhos.

Ele sorriu e abriu os braços para abraçá-la. Ela retribuiu o sorriso, e o abraçou fortemente. Aquele maravilhoso abraço que só ela tinha. O que faz com que ele se sinta nas nuvens, flutuando no espaço, sentindo cheiro de rosas no ar.

- Como você está? – Ele perguntou – E como foi a aula?

- Estou bem. A aula foi boa. Recebi notas de algumas provas, notas boas!

- Ótimo! Isso é muito bom. Mas não é nenhuma novidade, você é super inteligente. – Um pequeno sorriso surgiu em sua face ao dizer isso.

- Ah, obrigada! – Ela agradeceu, dando uma pequena risadinha. – E você, como está? E como foi sua aula?

Nesse momento, por mais que quisesse ser sincero, era óbvio que ele não poderia dizer: “Ah, não fui à aula, pois voei até sua casa e assisti a você dormindo a noite toda.” Mas quase o fez, hipnotizado por aqueles lindos olhos que encaravam a sua alma.

- Perdi a hora, não consegui chegar a tempo… – Foi a resposta que lhe conveio.

- Dorminhoco! – Ela disse, rindo. Quando ela ria era como se um raio o atingisse, deixando-o aceso de tanta felicidade por ver aquela alegria.

Ele riu junto, tomando suas mãos. Pensou, e falou:

- Eu estava pensando… Será que você gostaria de fazer um passeio hoje à tarde? Umas 17 horas, mais ou menos?

- Claro! Onde?

- É surpresa, mas acho que você vai gostar.

- Ah, tudo bem. Mas só me diga onde nos encontramos.

- Eu te busco na sua casa.

- Mas nós vamos de carro?

- Não, não dessa vez.

- Então como? É perto da minha casa?

- Você vai ver, vai entender. Não se preocupe, já me encarreguei de tudo.

Ela fez uma cara de quem está confusa, meio desconfiada, mas cedeu.

- Bem… Tudo bem, então.

- Certo, eu preciso resolver algumas coisas agora. Passei aqui para te ver e combinar isso com você, mas te encontro ás 17 horas, na sua casa, ok?

- Ah, tudo bem. Combinado. Te espero às 17, então.

Achou muito ruim ter de se despedir dela, mas tentou não deixar transparecer. Odiava ter de se distanciar dela. Doía, como se lhe arrancassem seu coração de súbito, sem pedir permissão; sem que ele pudesse fazer nada.

~

Bem longe dali, e entre 12:00 e 17:00, ele preparou-lhe uma surpresa. Essa era a idéia que havia lhe ocorrido durante a manhã, e que agora estava quase realizada.

~

Quando ainda faltavam 10 minutos para as 17:00, ele já estava em frente à casa dela, esperando. O Sol estava bem forte naquele dia. O asfalto da rua estava quente. Pensou que estava tão quente que poderia queimar as mãos caso o tocasse. Procurou por uma sombra e colocou-se debaixo dela. Não fazia tanta diferença, o calor continuava castigando, mas era melhor do que ter o Sol queimando sua cabeça, deixando seu cabelo em brasas.

Um carro muito bonito e caro passou pela rua bem na hora em que ela desceu para encontrá-lo. Só conseguiu ver as letras da placa: AMM. Não perdeu tempo olhando os números, já que sua musa estava ali, e agora podia contemplá-la novamente.

Bela. Tão bela que tomava todo o brilho do Sol para si. Tornava-se a fonte de luz na rua, e o deixava completamente apaixonado.

Cumprimentaram-se, e, logo após isso, ela perguntou para onde iriam, qual era a surpresa.

Ele tomou sua mão direita e, como um casal começaram um pequeno passeio pela rua.

- Sabe – começou ele – eu espero que hoje seja um dia especial para você. Espero mesmo, de todo o coração.

Ela o olhou com uma cara que era um misto de dúvida, confusão e curiosidade.

- Acho que você não está entendendo muito bem, afinal, continuo deixando esse clima de mistério, não é?

Ela assentiu.

- Pois então – ele continuou – acho que palavras deixariam você mais confusa. Prefiro mostrar.

- Tudo bem. Mostre então.

- Estamos quase chegando.

~

O final da rua tinha uma espécie de beco meio largo e vazio, porém conservado. Ninguém passava por ali, então ele julgou ser um bom lugar.

Ao entrar no beco, foram até a metade. De onde estavam mal podiam ver os prédios da vizinhança. Ficaram frente a frente.

Nessa hora o sol estava começando a alcançar o horizonte, fazendo jorrar sua luz alaranjada por toda a cidade. Um pouco daquela luz caia sobre os olhos dela, que ficavam acesos, como se estivessem em brasa. Sua íris tinha uma cor linda, e com a luz do sol ela ficava brilhante de modo que, se observasse atentamente, podia-se ver um lindo girassol desenhado ali.

Não pôde deixar de sentir uma sensação maravilhosa naquele momento. Algumas folhas secas do outono dançavam pelo chão, movidas pelo vento suave que passava por ali, produzindo um som único que deixava tudo mais lindo.

Ficou hipnotizado por alguns momentos. Hipnotizado por toda aquela beleza na sua frente. Como poderia existir alguém assim? Por mais que a visse todos os dias, não conseguia deixar de perceber beleza em tudo nela.

- Ahm… Tudo bem com você? – Ela perguntou, com um sorriso no rosto, despertando-o de seu devaneio.

- Ah, claro. – Ele respondeu, abrindo um pouco os olhos e balançando levemente a cabeça.

 Pareceu ter sonhado. Ah, mas ele não sonhou? E ainda continua sonhando. Seu sonho começa quando ele a vê, quando ele a encontra. E se pensas que o sonho acaba quando ela vai embora, pense melhor, pois o sonho permanece. Cada segundo de sua vida é um sonho. E isso, senhoras a senhores, é uma vida bem vivida. Mas não se o sonho fica só na cabeça, e sim se você os realiza, os torna realidade. E foi com esse pensamento na cabeça que ele decidiu fazer o que faria naquele dia: tornar seu sonho realidade. A principio ele hesitou, mas depois viu que sua vida nunca seria a mesma se ele desistisse. E por isso, ele não desistiu. Só posso dizer que ele nunca se arrependeu disso, e isso fez dele, sem duvida alguma, a pessoa mais feliz e sortuda do mundo.

- Me perdi um pouco nos seus olhos. – Ele continuou.

Ela não respondeu, só sorriu. Seu rosto também respondeu, ao ficar levemente corado.

Era ótimo ficar a contemplá-la, mas era hora. Olhou fixamente no fundo de seus olhos.

- Você confia em mim? – Ele perguntou ao tomar suas duas mãos.

- Confio.

- Então eu preciso que você feche os olhos e segure firme em minhas mãos. Não as solte durante sequer um segundo, não importa o que aconteça.

- Tudo bem… – O tom de sua voz não mentiu: ela sentia, sim, certo receio. Havia ali um estranhamento. Mas em nenhum momento ele sentiu falta de confiança, o que era o mais importante.

Ele fechou os olhos, se concentrou, e pensou em três coisas: Nela, em uma rosa, e em uma música.

“I just want to be with you / ‘cause living is so hard to do / when all I know is trapped inside your eyes.”

As folhas começaram a dançar em volta deles, como se um furacão começasse a surgir ali, deles. Ela não agüentou, e resolveu abrir os olhos um segundo para saber o que estava acontecendo ali. Não havia problema. Para falar a verdade, ele estava quase certo de que ela os abriria. Ao ver tudo aquilo ela ficou muito surpresa. Tinha um olhar um tanto quanto impressionado, mas em momento algum soltou as mãos, assim como ele havia pedido.

O chão começou a ficar vermelho-fogo, mas não havia calor ali senão o deles dois.

O silêncio só era quebrado pelo barulho do vento, das folhas, mas então um suave som de piano tomou-lhes a mente. Envolvia-os como seda, deixando-os cada vez mais inseparáveis

- Feche os olhos novamente, agora.

Ela ficou surpresa quando ouviu seu pedido. Como ele sabia que ela estava de olhos abertos, não sabia, mas não hesitou; sequer pensou duas vezes. Fechou os olhos. E quando ela o fez, todos os sons cessaram de súbito.

A energia fluiu dele para ela através do toque de suas mãos. E juntos eles inspiraram bem fundo. As mãos apertaram-se ainda mais. A alma dos dois conectava-se. A doçura do toque das mãos era extremamente romântica. Era como sentir-se no paraíso.

Em algum lugar do mundo, um campo de rosas floresceu iluminado pelo Sol, e ao mesmo tempo, as gotas de orvalho em suas pétalas escorreram como lágrimas.

E esse era o momento pelo qual ele esperava. Esse era o momento chave.

_

 

Esse é o primeiro “episódio” de uma série de três. Esse dá as coordenadas para o próximo.

Gostou? Acompanhe, comente, espalhe :) Tenho certeza de que vocês vão gostar do próximo.

Autor: Rafael Mendes da Silva.

Doce Sono de Anjo

Freedom. I'll fly to my love.Quando o relógio marcou meia noite ele silenciosamente se levantou da cama e, ainda com as luzes apagadas, calçou seu tênis. Não queria acordar ninguém, por isso fez cada movimento com a maior sutileza possível, no escuro.

Abriu a porta de seu quarto. Tudo apagado; todos dormindo; silêncio absoluto. Ao prestar atenção pôde ouvir a respiração suave de sua mãe vinda do fim do corredor. A respiração de quem já estava sonhando.

Caminhou vagarosamente até a sala. O lugar estava banhado pela luz cor de platina da Lua, o que deixava toda aquela situação, aquele momento, com um tom mágico; uma deliciosa e ímpar sensação de que estava vivendo um lindo poema, um conto romântico. Tudo isso devido ao que faria naquela noite.

Com todo o cuidado pegou a chave e abriu a porta da sala. O ar frio da noite bateu em seu rosto. Respirou fundo e sentiu-o também invadindo seus pulmões. Saiu. Trancou a porta e guardou a chave.

Ah, mas que sensação maravilhosa de liberdade naquela noite! Sentia-se capaz de quase qualquer coisa.

Deu alguns passos dirigindo-se à rua. Não havia movimento algum por ali. Havia apenas alguns carros estacionados em pontos distintos da rua. Em algum canto escuro um gato negro dava um salto, procurando entrar em algum lugar para se esconder. Nas beiradas da rua nasciam pequenas gramíneas. Havia também um pequeno canteiro com algumas plantinhas bem bonitas. Alguém havia esquecido ali um chaveiro daqueles que têm formato de letra. Era um “R”, e tinha uma cor bronze. Preso a ele havia apenas uma chave com um desenho de uma rosa nela. Manteve-o ali.

Chegando ao meio da rua, olhou para cima. Parada bem acima de sua cabeça estava a Lua, com sua luz forte que agora banhava meio mundo. Estava cheia, imponente, enorme. Sentiu-a tão próxima que achou que poderia tocá-la.

Fechou os olhos por um instante para poder sentir o frio, o silêncio, a energia da noite. Ergueu os braços e sorriu.

- Certo… Agora chega de esperar. É hora de ir. – Falou consigo mesmo, lembrando-se de que tinha algo a fazer naquela noite.

Respirou bem fundo e concentrou-se na Lua. Em sua mente apenas uma imagem fazia-se presente. Não era preciso ser um gênio para saber que era a imagem de sua amada, com seus olhos brilhantes como a Lua.

 2

 

A energia parecia fluir através dele, e era muito, muito forte. Vagarosamente começou a levantar vôo. Já estava acostumado com aquilo. Sempre que queria pensar, fugir, ou apenas sentir liberdade, voava para bem longe. Costumava visitar os mais belos lugares do mundo. Alguns que muitas vezes são inacessíveis à maioria das pessoas. Lugares não ainda descobertos, os quais tinham a mais bela natureza; as mais belas vistas; as mais belas flores, comparáveis apenas à beleza dela.

Já no ar pôde ouvir várias vozes angelicais entoando uma maravilhosa canção celestial. Ele parecia feito de luz nesse momento. Voar era uma das coisas que mais gostava de fazer. Mas quando tinha um motivo forte, era melhor ainda.

Começou a subir ainda mais. O vento começava a bater de leve em seus cabelos, e esses dançavam no ar. Um sorriso tímido surgiu em sua face, iluminada pela luz da Lua. Seus olhos brilhavam. Parecia o mais romântico dos seres vivos em busca de um sonho.

Quando chegou a uma altura que julgou adequada, parou e olhou para o horizonte. Luzes acesas em um canto, apagadas em outro. Poucos carros circulavam pela cidade. A cidade parecia mais calma do que nunca. Aquela noite parecia perfeita.

Agora que se encontrava pronto para partir, faltava mais uma coisa: saber a direção para onde deveria se dirigir. E essa tarefa não era dele, mas sim de seu coração.

Pôs a mão direita sobre o lado esquerdo do peito. Instantaneamente sentiu-o pulsar de forma selvagem, incontrolável.

Seu coração eram quem o guiava quando precisava da pureza, da verdade, da sinceridade, do amor.

Sentiu seu coração puxando-o para traz. Virou-se e viu uma luz ao longe. Encontrava-se muito distante de seu objetivo, mas seria um prazer voar até lá.

Começou com sua mágica de voar e pouco a pouco foi ganhando mais velocidade. A sensação era indescritível. O vento batia de maneira mais forte no rosto agora, jogando os cabelos para trás, apertando sua roupa contra o corpo. Tinha de manter os olhos meio fechados para não machucá-los.

No seu caminho até lá resolveu brincar um pouco pelo ar. Fazia piruetas, loopings, giros. Abria os braços, mantinha-os na frente, como se fosse o Super Homem. Fazia tudo com o sorriso no rosto. Tudo é melhor se feito com um sorriso, com felicidade no coração e na alma.

Olhou para baixo. Tudo parecia de brinquedo, de tão pequeno: as casinhas, os carrinhos com as luzes de seus faróis, os pequenos prédios.

Girou 180º no ar, ficando como se estivesse deitado. Dessa maneira estava olhando para cima, para o espaço. Viu as nuvens ali, bem perto, passando bem diante de seus olhos. Sentiu-se em uma cidade celestial. Viu também as estrelas enfeitando o céu, formando suas constelações. Nesta noite pareciam mais brilhantes, mais vivas. Teve uma idéia e guardou-a.

Voltou-se para seu objetivo: estava quase chegando. Já podia vê-lo claramente. A mais ou menos um quilômetro de distância estava o edifício, com as luzes de quase todos os andares apagadas. Mas o andar que o interessava era o de número 8.

3

 

Quando chegou a certa distância do edifício, parou. Estava com uma roupa escura, com intuito de se camuflar na escuridão da noite. Não queria que alguém olhasse pela janela e acabasse por ver um rapaz voando. Queria calma e silêncio.

Contou as janelas dos andares e conseguiu achar as do oitavo. Duas luzes ainda permaneciam acesas. Ficou ali, esperando.

Enquanto esperava ficou fazendo a única coisa que podia fazer naquele momento: pensando.

Sim, ele pensava muito. E se alguém pudesse ter acesso aos seus pensamentos, suas idéias, iria descobrir a beleza lírica de cada um deles. Era como uma tempestade de palavras lindas, imagens magníficas, sensações ímpares, lembranças sensacionais, o anseio da paixão.

Sacou algo que sempre levava consigo: um caderninho de anotações. Com um lápis começou a escrever coisas belas. Talvez as utilizaria para compor algo mais tarde. Na escuridão onde ele se encontrava mal se podia enxergar as anotações. Mas algumas palavras brilhavam de maneira incomum. Eram elas: chuva de rosas; amor; troca de olhares; beijos ardentes.

Terminando, guardou-o no bolso e voltou a olhar para o oitavo andar. Das duas luzes antes acesas, apenas uma continuava como estava, a outra já havia se apagado.

Continuou ali, imóvel, pairando no ar, esperando pelo momento certo.

Alguns momentos depois a luz se apagou. Seu coração palpitou; suas pupilas se contraíram ainda mais. Enfim poderia entrar.

4

 

Mesmo com as luzes apagadas, esperou tempo necessário para ter certeza de que todos estariam dormindo; para ter certeza de que não estragaria tudo.

Quando teve certeza de que já não haveria mais ninguém acordado, começou a voar em direção à janela. Sabia bem qual era. Por quê? Ora, era fácil. Era só olhar para aquela janela e ver que, mesmo com as luzes apagadas, havia luzes brandas, celestiais, saindo de suas frestas.

Encostou-se no edifício, chegou bem perto da janela e sutilmente começou a abri-la. Nenhum barulho foi feito.

Furtivamente entrou no quarto.

O que viu foi uma cena que, teve certeza, Monet adoraria pintar. Foi a cena que ele adoraria descrever, mas mais tarde. Agora tudo o que queria era admirar.

~

Em seu leito descansava o esplendor em pessoa, a beleza ardente e resplandecente, aurora de seu coração. Faltou-lhe o ar ao ver aquele anjo no mais profundo estado de sono. A luz da lua iluminava suas lindas madeixas cor de ouro. Sua pele parecia reluzir, e sua boca parecia uma rosa. Sua respiração tranqüila o contagiava, deixando-o imóvel, sereno. Que paz era aquela? Inatingível, única, que o abraçava como mãe que ama o filho, embalando-o em um deleite invejável. Do jeito em que se encontrava só pôde sentar-se e apreciar.

Desde o começo ele já sabia que seria capaz de apreciá-la ininterruptamente durante horas a fio. E durante horas ele a observou. Mal piscava, não queria perder nem aquele milésimo de segundo de apreciação. “Deus, como ela é linda”, pensou. E enquanto estava ali, reparou em cada detalhe que compunha sua beleza, cada pequeno traço delicado. Jamais se esqueceria deles.

Em determinado momento, levantou-se e aproximou-se dela. Preferiu ir flutuando, para não correr o risco de acordá-la com algum ocasional passo barulhento. Ajoelhou-se ao lado da cama.

Ao encará-la bem de perto sentiu o que queria. A eternidade em um segundo. O poder incomparável. O sonho alcançado. Pois ela emanava uma força jamais provada antes. A sensação de mil Sóis nascendo; de campos e mais campos de rosas desabrochando. Seu coração gritava dentro dele.

Tocou seu rosto com a ponta do dedo, acariciando-a. Chegou próximo o suficiente para sentir a respiração dela em seu rosto.

- Eu te amo – disse, sussurrando. – Você é meu Sol e minha Lua; a explosão de amor e paixão que ocorre dentro de mim. Minha musa.

Percebeu que a respiração dela mudou, mas que continuava dormindo. Apenas tinha ficado de uma maneira mais confortável. Dormia tranquilamente.

Podia ficar dias ali, só observando, e não precisaria de mais nada. Perto dela tudo era melhor.

Sentiu uma luz vinda de suas costas. Ao virar-se para ver o que era, tomou um susto. Era a luz do Sol que estava nascendo. Olhou para o relógio. Eram mais de seis horas da manhã!

Como o tempo passou assim tão rápido? Teve certeza de ter acabado de chegar! Mas já sabia a resposta antes mesmo de terminar o raciocínio. Perdeu a noção do tempo em meio à contemplação.

Voltou-se para ela. Ainda dormia tranquilamente apesar da luz vinda da janela aberta. Deu um beijo suave em sua testa. Sorriu e virou-se em direção à janela: era hora de partir.

~

Quando estava a meio caminho, a porta rangeu: alguém estava entrando.

Não teve tempo de nada, a não ser pular atrás de um móvel e se esconder. Também não teve certeza se a pessoa que estava entrando o vira ou não. Ficou bem quieto.

- Filha, hora de levantar. – era sua mãe.

Ela não respondeu nada, continuou na cama. Apesar disso, ele sentiu que ela estava agora meio acordada.

“Espero que ela não estranhe a janela aberta.” Pensou.

Continuou imóvel, não mexia sequer um fio de cabelo. Prendia a respiração. Apesar da adrenalina, mantinha-se calmo.

Durante algum tempo não houve nenhum barulho, nenhum movimento no quarto.

De onde estava podia ver a janela. Ela encontrava-se a pouco mais de um metro dele. E então, arriscar ou não? Sair voando rapidamente ou ficar ali?

De repente ele ouve algo. Ela estava se levantando.

 Esperou um pouco. Pensou em arriscar uma olhada para ver se ela já havia saído, mas ela podia vê-lo.

Olhou para a direita e viu um pequeno espelho. Pegou-o e posicionou-o de modo a ver o resto do quarto: vazio.

Certo, essa era a hora. Levantou-se, deu mais uma olhada para se certificar e pulou pela janela.

Durante a queda começou a voar. Já estabilizado tirou suas vestes escuras, revelando as vestes brancas que estavam por baixo.

Lá longe, no horizonte, o Sol nascia. A luz forte da manhã batia em seu rosto, o aquecia. Que manhã linda que se revelava. Estava revigorado.

Alguns pássaros passavam voando por ele, cantando felizes por mais um dia que lhes foi concedido.

Abriu bem os braços, respirou fundo, sorriu de orelha a orelha e sentiu-se feliz como nunca.

O motivo da felicidade? Bem, esse se encontrava alguns metros atrás dele, e havia acabado de acordar.

 

Autor: Rafael Mendes da Silva

Levantar de Manhã (A Rosa)

RosaIntrodução

O que faz você querer se levantar de manhã?

Ele sabe bem a resposta para essa pergunta. Sabe bem o que o motiva a encarar o frio glacial, retomar a sua jornada extensiva, sentir na pele o cansaço. É a esperança de poder encarar novamente aqueles olhos, ouvir aquela voz, tocar aqueles lábios.

A saudade que mata, agora o persegue e, mais do que isso, o invade sem pedir licença. Abre caminho em suas veias, e chega ao seu coração; à sua mente, não dando descanso um só segundo.

Mas ele sabe – e com felicidade – que essa saudade é reflexo daquilo que existe dentro dele. E como é bom ver o amor tomando conta de uma pessoa. Fazendo aquela pequena semente se tornar uma rosa exuberante, com suas pétalas majestosas e aroma inigualável. É o que faz – pelo menos na opinião dele – o mundo girar, existir.

Movido por esse sentimento ele pensa nela, e isso é como um remédio para ele. As lembranças mais valiosas e capazes de curar qualquer dor estão guardadas como tesouro dentro dele. São lembranças dela. São lembranças deles.

E seria possível pensar em alguém mais? Ah… todos nós sabemos que não. Basta olhar em seus olhos. Os olhos de sonhador que recentemente tomaram conta dele não mentem, mas sim o entregam, mostrando que sua mente está a quilômetros de distância, completamente direcionada àquela pessoa que, embora longe, encontra-se ali, em seu coração.

-

1

Nesse exato momento ele caminha sob um céu nublado. São onze horas. A avenida movimentada mostra pessoas de todos os tipos. Observa um jovem com seus óculos, ouvindo uma música no volume máximo; uma senhora observando os edifícios; um executivo consultando as horas, correndo para não chegar atrasado ao seu trabalho; um casal na esquina trocando pequenos beijos, dignos de uma pintura, ou uma cena de filme romântico.

Olha para cima e vê que o Sol do dia anterior estava agora escondido atrás de espessas nuvens, carregadas.

Está fazendo seu percurso diário, nada de mais; tudo normal. Mesmos edifícios, mesmas lojas, muitos carros, rostos diferentes. A rotina parece tomar conta das pessoas, de alguma maneira.

Acontece que naquele dia ele sentiu certo impulso de mudar de percurso. Sentiu uma vontade enorme, aliás, uma necessidade de virar a esquina na próxima rua.

E ele o fez.

2

Começou a descer a rua desconhecida com ares de turista. Afinal, nunca esteve por ali.

A rua tinha uma energia diferente, mais calma. Uma brisa leve batia em seu rosto, algumas árvores faziam sombra, e alguns pássaros cantarolavam alegremente. Era bom estar ali. Perguntou-se como nunca estivera ali; como nunca tivera vontade de virar a esquina para sentir aquela calmaria.

 Andou bastante. A rua parecia infindável. Olhava no horizonte, mas só via chão a percorrer. Mesmo assim sentiu que deveria andar mais.

Continuou andando, devaneando. E devido aos seus devaneios, não percebeu quando a rua começava a chegar ao seu fim; que estava chegando ao seu destino, que, até então, era um mistério.

Ele para de súbito. Põe as mãos nos bolsos e franze a testa, deixando seus olhos semicerrados. O que era aquilo no final da rua?

Ele observa com cuidado o que poderia ser um terreno vazio, abandonado, mas muito bem cuidado.

Resolve olhar de perto.

Chegando lá fica surpreso ao ver um terreno enorme em plena cidade grande. A relva, verdíssima, cobria suavemente seus pés. Ao cruzar o perímetro que separava o terreno da rua, todo o barulho típico da cidade agitada cessou. Respirou fundo e percebeu que também o ar havia se modificado: estava puríssimo.

Olhou para trás e viu a avenida ao longe, agitada, com seus carros e pessoas apressadas. Voltou seu olhar para frente e viu que de onde ele se encontrava o céu estava claro como diamante, e que várias nuvens flutuavam suavemente por toda a sua extensão.

Começa a caminhar vagarosamente pelo terreno, olhando sempre em volta, não receoso, mas curioso.

O terreno era, de alguma maneira, surreal. A grama era estranhamente perfeita demais. E a cada passo que dava sentia um arrepio forte. Cada vez que avançava seu coração batia mais intensamente. Isso o deixava um pouco assustado, mas mesmo assim resolveu continuar.

Percebeu que estava próximo  do que julgava ser o centro do terreno. Chegando lá, encontrou algo que tirou seu fôlego. Algo que era muito significativo para ele; algo que se assemelhava com o que tinha dentro de si. Era uma das coisas mais belas que já vira.

No centro do terreno havia uma rosa. Mas não uma rosa qualquer. Era uma rosa, sabia ele, diferente de todas as outras. Aquela que se destacava entre todas.

Agachou-se para poder apreciá-la. Como era bela! Suas pétalas eram delicadas e vermelhas como sangue. Emanava um aroma viciante, doce, que só essa, em particular, tinha. E ele sabia disso sem nem precisar conhecer o aroma das outras rosas. Simplesmente sabia.

Após alguns instantes apreciando a rosa, ele resolveu fazer o que estava pensando: retirar a rosa dali.

Sabia que era ela que dava toda a beleza àquele lugar, mas sabia também que era por um motivo mais forte, mais importante. Sabia que não seria em vão, e que a levaria para um lugar onde a rosa estaria em contato com algo semelhante a ela mesma.

Pensou na dor que sentiria, mas não se importou. Aguentaria a dor de bom grado já que o propósito era válido. Portanto, descartou-a de seus pensamentos.

Concentrou-se na rosa. Deu um sorrisinho meio torto ao encará-la, como se pedisse desculpas antecipadamente pelo que faria a seguir. Respirou fundo e tocou o caule da rosa. Apesar dos espinhos, segurou firme e a arrancou do solo. Ao olhar para a palma de sua mão, viu o sinal de que o que fizera fora certo: não havia um único corte, nem sequer um arranhão. Encarou também a linda rosa em suas mãos e viu que essa se encontrava desprovida de seus espinhos. Talvez porque soubesse que de seu lindo terreno e das mãos de quem a arrancou, a rosa iria para as mãos de alguém delicada como ela.

Beijou a rosa, direcionou-a aos céus e deu uma piscada, sorrindo.

3

Começou a subir novamente a rua, agora a passos rápidos, pois tinha um compromisso. Olhou para trás uma única vez, e viu que o terreno continuava ali, mas já não tinha o mesmo brilho de antes; de quando tinha a rosa em seu solo. Como que para compensar, um feixe de luz desceu do céu e iluminou aquele pedaço da cidade. Foi algo que nunca presenciou, teve vontade de parar e observar, mas manteve seus passos rápidos.

Olhou para o relógio. Ainda eram 11:30, ainda tinha tempo. Mandou uma mensagem pelo celular.

Interessante pensar como aquele momento todo durou apenas cerca de 30 minutos. Em sua mente tudo aquilo durou horas.

Chegando novamente à avenida ele percebe que o céu está nublado e uma chuva fina banha a cidade. Caminha um pouco em direção ao seu destino. Abaixa os olhos para olhar a rosa, e quando olha para frente novamente o tempo parece ficar devagar, em câmera lenta, pois ele a vê, deslumbrante.

Esperando por ele está aquela que é a dona de seu coração. Sim, ela é divina, e parece emanar certa luz, a qual a destaca no meio das outras pessoas que passavam por ali. E como se o universo tivesse resolvido dar ênfase, uma brisa bate em seus cabelos, e estes voam e balançam no ar. Ao observá-la com maior carinho, ele encara aqueles que são a sua luz na escuridão da noite: seus olhos. Os olhos mais lindos que ele já viu. Os olhos claros que em momento algum do dia saem de sua mente. Ficam ali, fazendo-se presentes em cada pensamento, cada ação, cada suspiro, cada sensação.

Ao vê-lo, ela sorri, e ele retribui o sorriso. E como é bom ver aquele sorriso. Ah… aquele sorriso se destacando em sua face. Sinal de que ela realmente está ali. Sinal de que o momento pelo qual ele espera dia após dia está realmente acontecendo.

Ele entrega a rosa a ela, sorriso estampado no rosto.

Ao ver a rosa ela fica surpresa, feliz. Era o que ele queria. Tudo o que faz, faz com esse objetivo. Deixá-la feliz, alegre, são coisas que trazem sua própria felicidade.

No fundo ele sabia que estava entregando uma rosa para uma rosa ainda mais linda. Como foi confortante tê-la perto de si. Deram um beijo carinhoso, deram-se as mãos e puseram-se a caminhar. O toque suave de suas mãos o deixa em estado de graça. Por mais simples que seja, esse ato transmite uma ternura enorme. Em sua mente romântica, cada detalhe é registrado, pois ele sabe que o amor, o romance, a paixão, estão em gestos simples, mas que contêm o mais puro e poderoso sentimento.

Como relâmpago no céu uma certeza lhe ocorre: Ele sabe o que o faz querer levantar-se de manhã.

 

Autor: Rafael Mendes da Silva

O Sonhador

Through WindowNa mais fria, escura e solitária das noites ele ouve a voz dela.

 “Como eu gostaria que você estivesse aqui”, entoa a linda voz.

E é essa voz suave, calmante, tão bela, que faz com que ele feche os olhos e se lembre daquela noite. A noite em que o sonho deixou de ser uma utopia e tomou forma bem diante de seus olhos. Foi como um conto de fadas que não foi escrito; simplesmente aconteceu. A troca de olhares entre eles naquela noite foi mais do que inesquecível. Aquele momento será fonte de inspiração para ele até seu último dia. Só o fato de tê-la em seus braços naquele momento fez da noite a mais completa de todas. Era tudo o que ele queria. E não era exatamente o que a musica dizia naquele momento? Coincidência ou não, dizia: “Tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei está aqui nos meus braços.”

As lembranças são doces, confortantes, e trazem nostalgia.

Lá fora o silêncio reina absoluto. O vento sopra de maneira que pode ser apenas sentido, mas não ouvido. Seus olhos refletem a luz natural da noite, deixando-o com um ar de sonhador, o que ele não deixa de ser. Fecha os olhos e tenta sentir a paz da noite, mas um aperto no coração não permite.

Respira fundo, põe a mão no peito e sente o coração batendo em um ritmo lento, romântico, e ao mesmo tempo forte, decidido. Abre os olhos, olha pela janela e vê o céu escuro e cheio de nuvens.

A noite em si parece ser um antro de lembranças: O céu nublado; o frio que o aflige; a vontade de estar perto dela. Traz ainda mais lembranças agora que algumas nuvens cederam espaço à Lua, que sempre foi uma das maiores fontes de lembranças para ele. O faz lembrar-se daqueles lindos olhos verdes que pareciam dizer tudo sem pronunciar uma só palavra; os olhos que, quando encontravam os seus, faziam-no esquecer de todas as tristezas e transformavam seus arredores num paraíso na terra. Ela tinha esse poder, por isso nunca perdia a oportunidade de apreciar sua beleza, e quando o fazia, observava seus cabelos loiros, magníficos como os raios de luz da aurora e a feição que escultura nenhuma de Michelangelo jamais poderia conter. Ela toda parecia a mais pura manifestação da perfeição, mais bela que o próprio Sol e Lua juntos.

Cada segundo com ela era como um segundo no paraíso.

Nunca conheceu alguém como ela, que tinha tamanha riqueza interior; que tanto se destacava entre a maioria; que não era ‘normalzinha’. Conversar com ela, sorrir e ouvir o que ela tinha a dizer eram coisas maravilhosas de se fazer. Afinal, ela lhe interessava.

Cada pequeno segundo que ele passava com ela era arquivado em sua mente para que mesmo nos momentos de mais profunda tristeza ele tivesse um motivo para sorrir e saber que tudo ficaria bem. E por isso, mesmo ali, deitado na mais fria, escura e solitária das noites, ele sorri, encara mais uma vez a Lua e pronuncia seis palavras no ar frio da noite: Meu coração está sempre contigo, agora.

Autor: Rafael Mendes da Silva

 

Esse texto foi produzido poucos dias atrás, mas resolvi esperar um pouco para postá-lo.

sad_man2Afrouxando o nó da gravata ele senta na praça escura. Só uma luz continua viva nos postes de iluminação, mas dando sinais de que sua vida útil está perto do fim: pisca constantemente. A má iluminação da praça, o banco quebrado e o fato de nenhuma pessoa estar presente – a não ser ele – dá à praça um clima soturno e meio sórdido. Essa praça foi antes a mais bela de todas. O Sol iluminava cada pedacinho dela. Flores nasciam nos arredores. Havia pessoas e elas sorriam. Tudo era conservado. Mas de uma hora para outra o Sol se foi, assim como a alegria. E agora ele vê o retrato de um lugar completamente destruído. Não sente sequer um pouco de medo. Seu sentimento é outro.

Ah, doce ilusão, amarga tristeza. O amor fez com que ele entregasse seu coração e logo depois perdê-lo. Ele sente algo dentro de si falando pra ele não se importar. Esquecer e seguir em frente sem nunca se lembrar novamente. Porque ele sabe: cada ato e cada palavra tiveram seu peso e importância para a constituição (ou seria destruição?) daquilo que ele sente agora. A dor de um sentimento construído com tanta fé e amor (o mais puro amor) desmoronando como um castelo de areia.

Leva as mãos à cabeça, bagunça um pouco o cabelo e olha para o chão. Passa dez minutos ali, pensando, mas logo desiste. Pensar não adianta em nada. Sente uma tristeza ainda maior inundar seu ser. De maneira que dói em seu peito. E o pior é saber que a única cura para essa dor está perdida. Com os olhos marejados de lágrimas ele se levanta e olha para o céu. Mas não há nada ali. Não há estrelas, não há lua cheia. Só o vazio que se assemelha ao seu coração. Lembra-se do trecho de uma musica que ouvia quando era menor, a qual dizia que a pessoa estava tão triste que tinha feito os anjos chorarem. E, coincidência ou não, era por amor. É interessante pensar que o mesmo sentimento responsável pela maior de suas felicidades também pode ser o que te deixa sem coração nem alma.

- Ah… Esqueça isso. Ficar pensando nisso vai mudar alguma coisa? – ele fala consigo mesmo.

Não, não vai mudar, mas mesmo assim ele continua pensando, tentando saber onde foi que ele errou.

Caminha vagarosamente pelo perímetro da praça e vê uma pichação de uma só letra. É a inicial do nome dela. Hum… É como se uma lança o atravessasse. E dói muito. Rapidamente os poucos momentos que ele teve com ela voltam à sua mente. Ele se lembra do céu estrelado daquela noite. Da dor da separação na hora da partida. E mais do que isso ele se lembra daquele abraço, dos olhares, das risadas, dos toques… Dos beijos… A lembrança é tão recente e tão forte que é quase como se ele pudesse tê-la ali novamente. Mas, me responda. Ele pode?

Das sombras começam a surgir vultos que vão tomando forma. Por um momento ele parece esquecer-se da dor. Suas pupilas dilatam. Seu sangue congela. A adrenalina flui pelo sangue agora.

Os vultos começam a tomar um pequeno brilho. Um brilho meio tímido, mas que, ele percebe, começa a se espalhar pela extensão da praça.

Ele olha ao redor e vê que está cercado pelos vultos e sua luz.

- Quem são vocês? – Ele indaga em tom meio alto. – O que é isso?

Mas eles não respondem, só continuam com sua mágica de luminosidade. Tudo vai ficando mais gradualmente mais claro e começando a ficar um pouco mais quente, de modo que o obrigou a tirar o paletó. Deixou-o de lado e procurou a saída mais próxima.

Correu em sua direção, mas acabou tropeçando em algum objeto. No chão, ele lembrou mais uma vez dela. A doce imagem de seu rosto sorrindo.

A imagem foi apagada subitamente de sua memória por uma explosão ocorrida no lado oeste da praça. Ele se vira no chão rapidamente para olhar a fumaça subindo. Está apavorado agora, e quer sair dali o mais rápido possível. Mas algo dentro dele sabe que ele não pode sair dali, de jeito algum.

Depois de algumas tentativas frustradas de sair, ele olha para os vultos e vê que eles continuam ali, impassíveis e imóveis. Não os compreende, mas ao mesmo tempo sabe por que eles estão ali.

Resolve desistir de sair. Senta novamente no banco em que estava sentado momentos atrás, limpa a poeira das vestes com alguns tapinhas, recosta-se e espera pelo mágica curativa do Senhor Tempo, que trará um novo nascer do Sol.

Autor: Rafael Mendes da Silva

 

Uma breve explicação:

Pode ter parecido meio confuso, mas o lugar onde o personagem principal está – a praça – é o seu próprio coração, que agora está completamente vazio, destruído e frio, mas com algumas lembranças daquilo que antes deixava o lugar bonito (como as iniciais da amada). Ele não consegue sair dali, e acaba preso em seus pensamentos; preso dentro de si mesmo; sofrendo. Os vultos são a esperança, que surge mesmo no mais insólito dos lugares para ajudar. A explosão é uma decepção que ele tem e que acaba com o seu emocional, fazendo-o lembrar de antes. Ele desiste pois não há maneira de sair do seu próprio coração. E apenas o tempo trará mudanças.

A Porta (Final)

Esse é o final da história “A Porta”. Era pra ser menor, mas resolvi escrever um pouco mais.

Completamente nítida. Essa foi a melhor maneira que ele achou para descrever a imagem à sua frente. Lembrou de sonhos que teve anteriormente, os quais tinham uma imagem boa, mas relativamente embaçadas, típicas dos sonhos.

Haveria palavra para descrever a beleza daquela pessoa que se encontrava agora a aproximadamente 4 metros dele? Perfeição, talvez. Mas achou que seria pouco, muito pouco. Tamanha era a beleza, ele achou que poderia estar em outro sonho. Mas já havia pensado nisso, e de certa forma ele estava, graças a ela.

Durante algum momento o silêncio permaneceu. Tudo estava parado, inclusive o tempo e o espaço. Seu coração, antes acelerado, agora estava em um ritmo calmo, apaixonado. Sentia-se leve, sublime, como se presenciasse o alvorecer. Ali não havia céu, não havia nuvens, não havia Sol. Ela era o Sol.

Sentiu que precisava dizer algo, manifestar-se. O silêncio começava a queimar na língua agora.

Começou a andar na direção dela a passos lentos: nada de pressa. No primeiro passo, uma brisa começou a correr por ali. No segundo, a brisa começou a ficar mais forte e ir para todos os lados, brincando com os cabelos de ambos. A partir daí, cada passo ‘fazia’ algo. E cada passo era como um alívio para ele.

Quando chegou à metade do caminho, ela estendeu a mão: pare. Ele parou. Ela sorriu e começou agora a ir à direção dele.

Como ela era linda, meu Deus. Aqueles olhos… Os olhos de quem sabe cada um de seus pensamentos e cada um de seus segredos mais profundos. Encaravam mais do que o corpo, o coração e a alma. Pareciam ir além. Os cabelos ondulando suavemente na brisa agitada daquele paraíso luminoso. A inspiração crescia desenfreadamente dentro dele por conta da elevada paixão que nascia como uma rosa dentro de seu coração. Os lábios sedutores dela eram capazes de levá-lo a outra dimensão. Deixava-o louco com aquele sorrisinho provocador. “Sedução”. Foi tudo no que conseguiu pensar.

Ela cessou os passos quando chegou a um palmo de distância dele. Estavam bem próximos um do outro agora. O suficiente para poder ouvir sua respiração e senti-la; para poder beijá-la e acabar com aquela vontade louca de tê-la em seus braços.

Olhou-a no fundo dos olhos e disse: “Durante a minha vida inteira não consegui achar alguém que pudesse me fazer sentir tamanho amor; com quem pudesse experimentar tantas sensações maravilhosas mesmo sem estar próximo dela. É evidente que você sabe disso. Sente o mesmo que eu, eu suponho. Pelo menos é o que algo dentro de mim me diz.”

Ela sorriu com tanta força que todo o ambiente se modificou. A luz brilhou como o Sol. O lugar, que antes era pura luz, começou a se transformar. Uma extensa praia agora começava a aparecer. A água era límpida, transparente. A areia era tão clara que em determinado momento se perguntou se não era neve. Atrás deles várias árvores altas começavam a nascer. Seus cimos eram tão elevados que teve que vergar a cabeça para poder vê-los. Olhou novamente para ela e pôde perceber que havia algumas pétalas de rosas espalhadas na orla, mas eram poucas. Algumas nuvens bem brancas tomavam lugar no céu. Tudo aquilo era outra versão do paraíso. E estavam completamente sozinhos.

Ela inspirou bem fundo e quando soltou o ar, levou uma mão à outra e levou-as ao seu peito, ficando com um ar de quem está apaixonado. Logo depois, a voz mais amável e apaixonante soou em seus ouvidos, dizendo: “Desde o dia em que eu te ‘conheci’ não pude pensar em outra pessoa. Meus dias ficam mais felizes, mais coloridos. Eu sinto paixão no ar e minha mente projeta imagens que me lembram você a todo tempo. Você se tornou essencial. Depois disso, todas as possíveis lágrimas se transformam em sorrisos. E a cada segundo esse sentimento só engrandece e a saudade aumenta. Você está presente nos meus pensamentos, sonhos, sentimentos, desejos e ações. E a maior de minhas vontades era que esse dia chegasse. O dia em que pudéssemos estar juntos e que eu pudesse realmente sentir você.”

Cada palavra – ele pôde sentir – foi dita de maneira tão doce e tão sincera que nada naquele mundo seria mais lindo. Durante um momento ele ficou em silêncio. Não havia palavras naquele mundo capazes de descrever o que ele estava sentindo. Além de tudo, estava com uma vontade enorme de beijá-la. Por Deus! Era o que mais queria naquela hora. Era o que iria fazer, sem dúvida alguma.

Levou sua mão direita aos cabelos dela e acariciou-a de maneira tão carinhosa que ela fechou os olhos por um instante, sentindo aquele momento. A brisa vinda do mar trazia consigo o aroma do perfume dela. Ele chegou mais perto dela e também fechou os olhos. Sua boca estava muito próxima da dela. Agora não via nada, apenas tocava, ouvia e sentia aquela doce fragrância. Passou o outro braço pela sua cintura e colou seu corpo no dela. Ela deixou escapar um leve suspiro, que traduziu bem o seu desejo. Levou seus braços ao pescoço dele e se entregou ao que vinha a seguir.

Era tudo o que ele queria.

Aproximou sua boca da dela, tocando-a levemente. Seu corpo todo se arrepiou, e o dela também. O sangue ficou quente, e pulsava com a força do mar, que agora se agitava. O beijo foi ficando mais intenso e mais apaixonado. Eles se abraçavam com força, como se tivessem medo de que algo os separasse. A respiração de ambos, agora forte, quase selvagem, contrastava com o barulho do vento nas folhas das árvores, que dançavam ao vento, produzindo sua música calmante. Mas nada daquilo poderia acalmá-los agora. Amavam desenfreadamente.

O beijo foi longo e muito bom. Ao final, ambos olharam-se. Ele, com aquele sorriso enorme de satisfação e felicidade. Ela, com o mesmo sorriso e felicidade, mas com as bochechas coradas.

- Não quero mais nada nessa vida além de você. E agora que tenho você, não a troco por nada. – disse ele, dando um beijo em sua testa.

- Eu já não tenho mais medo de nada ao seu lado. Sinto-me protegida e amada. Você é tudo o que eu quero; tudo o que eu preciso. – ela respondeu, segurando a mão dele.

A felicidade os dominou por completo. Começaram a caminhar pela orla da praia, sentindo a areia fina sob os pés, ouvindo as ondas do mar batendo e observando o Sol dirigir-se pouco a pouco ao horizonte, procurando ceder o céu à Lua.

- O que você acha de apreciar o crepúsculo que está por vir? – O maravilhoso convite partiu dela. E não era preciso ser gênio para saber a resposta.
- Perfeito. Será maravilhoso. – ele respondeu prontamente – Principalmente com você.
- Você é maravilhoso. É único. Eu sinto amor em tudo o que vem de você. Cada palavra, cada ato… Ah… – Aquele suspiro apaixonado novamente. O que o deixava feliz a ponto de poder voar.
- Ah, baby. É você quem me faz sentir isso. – disse, o sorrindo tomando conta de seu rosto.
- Adoro quando você me chama de ‘baby’.

Ambos sorriam novamente. Deram um pequeno beijo e sentaram-se na areia. Ele a abraçou, deixando-a confortável em seu peito e acariciando seus cabelos.

- Eu te amo. – Os dois disseram ao mesmo tempo e deram uma risada gostosa de apaixonados.

Observaram o sol se pondo, a Lua cheia chegando, as estrelas cintilando. Trocaram beijos, caricias e olhares. Deitaram na areia e observaram o amplo céu estrelado.

Tudo é mais perfeito do lado de quem amamos. Assim foi, assim é, e assim será.

 

Autor: Rafael Mendes da Silva

A Porta

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Como os leitores gostaram do último post, resolvi criar uma história baseada nele. Gostaria de lembrar que a história anterior foi um sonho, mas essa aqui, não.

Ele desliga o telefone e o coloca em cima da mesa da sala. Todas as luzes estão apagadas. Silêncio total na casa: está sozinho. Fica encarando o vazio por alguns instantes, meio atônito. Todos os seus pensamentos são sobre ela. Não há como ser diferente. Principalmente agora que pôde ouvir a voz dela. A voz dela… Ah… que voz doce. Transmite toda aquela calma e todo o amor. Parece ser ainda mais divina do que as mil harpas celestiais que nunca cessam no paraíso. “Uma obra divina”, ele pensa. E ele está certo. Jamais viu tamanha perfeição em uma única pessoa. “Ela é perfeita. É um sonho que não cessa. Quando durmo, ela permanece em minha mente. Quando acordo, aqui está ela, para transformar minha realidade em algo digno do mundo dos sonhos”. Caminha a passos lentos até a janela e observa a noite lá fora.

A rua está completamente parada e vazia. Um carro aqui e outro ali. Os postes de luz iluminam brandamente a rua, dando um toque um tanto quanto romântico à cena. Olha para cima e ele a vê. Sim, ela. A Lua (Oh, the Moon…). Ela está cheia naquela noite e tem nuvens ao seu redor. Fica a observando durante um bom tempo, e quando percebe, está pensando nela novamente; em como seria bom tê-la ali ao seu lado para que pudessem observar aquele fantástico acontecimento que, embora tão simples e comum, tenha uma força esplêndida e seja tão romântico. Seria maravilhoso. Mais do que isso. Seria perfeito, assim como ela. Resolve fechar os olhos e sentir aquele momento. Imagina a sua amada fazendo o mesmo que ele: observando a Lua naquela noite tão linda. Abre os olhos e vê que algo incrível aconteceu. O céu, antes cheio de nuvens, agora se encontrava todo estrelado. Não importava pra onde ele olhasse, havia uma estrela. Franziu a testa. Não entendeu como aquilo aconteceu, mas de algum modo sabia que tinha algo a ver com o sentimento imenso dentro de si. Resolveu fazer um teste: fechou os olhos mais uma vez e se concentrou no seu sentimento. Sentiu aquela sensação novamente, mas agora de forma mais intensa. Sentiu uma leveza momentânea. Quando abriu os olhos não estava mais em sua casa. Sentiu um vazio no chão, e quando olhou para baixo, viu as luzes da cidade cintilando, os carros nas ruas e algumas árvores: Estava flutuando. De alguma maneira isso não o surpreendeu. Olhou para frente, como se já soubesse o que ia encontrar. Havia uma porta de madeira pau-ferro. Estava parada no ar, e estava presa em… nada. Simplesmente estava ali. Nela havia umas inscrições suavemente talhadas à mão na altura de seus olhos. Não as compreendeu. Olhou para a maçaneta e viu que ela era feita de ferro. Era simples e parecia nova em folha. Hesitou um pouco, mas resolveu entrar nela. Quando tocou na maçaneta, a imagem de sua amada surgiu como fogo em sua mente, com tamanha intensidade que ele pensou estar na frente dela. Ao invés de soltá-la, fez exatamente o contrário, e girou a maçaneta. Sentiu-se no centro do universo, sentiu todo o vigor que o amor pode proporcionar. Sorriu e abriu a porta no ar. Uma luz fortíssima saiu da porta. Tão forte que parecia atravessá-lo como flecha.

Lá embaixo as pessoas começavam a olhar para cima, querendo saber a fonte da luz tão forte que deixava a noite parecendo dia.

Abriu ainda mais a porta, e agora sentia algo puxando-o para dentro. Deu um passo na luz e tudo mudou. Sentia-se feito de luz. Luz pulsava em suas veias. Seu coração começava a bater cada vez mais forte. Sentiu cada pedaço do seu corpo arrepiado e cada célula pedindo por ela. Tudo se resumia a ela, mesmo. Amava aquela sensação. Há sensação mais confortante e que mais tome conta de nós do que o amor? Para ele não.

Deu mais um passo. Agora estava todo do lado de dentro. Sentia-se incrivelmente perto dela, como se pudesse tocá-la. Sentiu uma paz imensa ali. Uma felicidade que nunca sentiu antes. Sorria de orelha a orelha, como nunca sorriu. Sentia-se mais que humano agora; imortal. Ainda não podia ver nada por ali, apenas luz. Virou-se e fechou a porta. Agora sentia seu coração bater acelerado. De repente estava mais ansioso do que nunca. Levantou a mão e viu que tremia. Apesar da luz intensa, suas pupilas encontravam-se dilatadas, olhos bem abertos. A cada respiração, a luz pulsava, como se acompanhasse seu ritmo. Respirou fundo e fechou os olhos. Virou-se com a maior expectativa que já sentiu em toda a sua vida. Ao abrir os olhos, sentiu toda a felicidade do mundo. Foi o melhor momento de sua vida até então. Não podia acreditar no que estava vendo, era bom demais para ser verdade! Correu em direção à fonte da luz, sorriso estampado no rosto, lágrimas escorrendo pela face e coração pulsando. Seu sonho se tornara realidade.

A história não acaba aqui. Ela continua no próximo post. Já comecei a escrevê-la e vou postar em menos de uma semana (:

Autor: Rafael Mendes da Silva

Um Sonho

Esse é meu primeiro post. Tive um sonho e resolvi escrevê-lo. Sem mais delongas:

Ao abrir os olhos, ao invés dela, ele vê o teto. Vê também que seus braços estão jogados para cima, como se abraçassem o ar. Tem de se contentar com esse infeliz fato: foi apenas um sonho. Para onde foi o doce aroma de sua amada? E quanto ao som dos suspiros ao seu ouvido? Pois ele não os escuta, não mais.

Permanece deitado, lembrando do que acabou de sonhar. Estava com ela, naquele extenso campo de flores, plena primavera. Aqui e ali pássaros voavam entoando seu canto celestial, tornando tudo aquilo realmente perfeito demais. O sol banhava toda a planície, derramando sua luz em tudo à volta deles. Que sensação maravilhosa. Apesar da beleza ao seu redor, ele sabia que era ela quem estava fazendo tudo aquilo ser lindo. Mas é claro. Existe cor no mundo sem ela ao seu lado? Não. E isso era tão óbvio quanto saber que seu coração pulsava exclusivamente por ela.

Lembra-se que, ainda no sonho, tomou sua mão e a beijou. Disse: “Seu amor é o meu amor, e faz meu mundo girar, meu coração bater, minha vida valer a pena. Eu te amo.”

Ao dizer isso, instantaneamente um sorriso nasceu no rosto dela. Ah, aquele sorriso… Que tomou toda a sua atenção. O sorriso que a deixava com um aspecto divino; que fazia com que toda a natureza ali virasse apenas um detalhe.

Ele a abraça. Sente seu calor. O calor do amor, é verdade. Mas não um amor qualquer. Esse amor, ambos sabem, não se encontra em qualquer pessoa, qualquer coração. É o amor mais puro e verdadeiro. O sentimento que faria qualquer um dos dois fazer tudo, absolutamente tudo, para preservar.

Seus corpos estão juntos agora. Seus corações mais próximos do que nunca. Toda a força do amor concentrada ali. E é nesse momento que ele começa a perceber: tudo ficou calmo. Nenhum som, nenhum aroma, nenhum movimento por ali. Nada. Só o leve som da respiração de sua amada ao seu ouvido e o doce aroma de seu perfume. Queria que aquele momento durasse para sempre. Ele já não sente nenhum dos males do mundo o afligir. Não sente dor, não sente frio nem calor, não sente sede, não sente tristeza. Nada além do mais puro e importante sentimento que existe: amor. Tudo o que ele precisa está em seus braços.

Ela sussurra algo em seu ouvido. É o suficiente para fazê-lo mais feliz do que nunca. Ele sorri. Por um momento sente-se capaz de voar. Uma energia enorme toma conta de seu corpo e ele respira fundo. Olha no fundo dos olhos dela. Percebe que lágrimas estão percorrendo a face angelical de sua amada e as enxuga com a mão. Diz mais uma vez que a ama e então a beija. A doce sensação do beijo faz seu coração pulsar mais rápido do que nunca. Sua pele se arrepia, assim como a dela. Eles são um só. Têm o mesmo pensamento, a mesma vontade, a mesma sensação. O amor tomou conta dos dois e agora não há volta. Eles sabem disso e se entregam de todo o coração.

Toda aquela perfeição poderia durar uma eternidade. Deitariam ali e ali permaneceriam até o fim. Mas porque algumas coisas têm de ter um fim diferente do que esperamos?

De repente algo fica estranho. O céu começa a se dissipar, ela começa a tomar um aspecto transparente e seus pés já não tocam a grama. Ele não sente mais o cheiro do perfume dela. Um desespero toma conta dele. Ele não quer o fim daquele momento! Ele grita, mas não há som, não há luz, não há pessoa alguma em seus braços. Ele tem que aguentar a dor de saber: foi apenas um sonho. Tudo o que permanece é a lembrança de uma vontade.

Autor: Rafael Mendes da Silva