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Uma Viagem Só de Ida

20130111-035832.jpgEm tempos como este, principalmente à noite, não existe sentimento que consiga ser mais cruel que a nostalgia. A tortura de saber que o inalcançável bate à porta de sua mente e de seus pensamentos, quase se insinuando, seduzindo, é latente e quase mata.

O relógio na parede me tortura com seus tiques, que só martelam em minha cabeça a certeza de que o tempo avança, deixando-me cada vez mais distante da utopia que vivi, e que só chamo de utopia (e que só se tornou utopia) porque percebo que era algo perfeito e, agora, inalcançável. Tomo o relógio em minhas mãos e desesperadamente retrocedo os ponteiros, na vã esperança de voltar no tempo. Sentado no chão da sala, tomo alguma ciência de minha loucura e levo as mãos à cabeça. Não há o que fazer. A vida é cruel assim, toma os rumos que bem lhe entendem e atropela qualquer um que ao menos deseje o contrário. E assim me sinto: atropelado. Toda a inocência e a esperança ficam ali, derramadas no chão como sangue de um baleado. Recolho o que resta delas, e tento me manter de pé, vivo, por mais que sinta espinhos sob os pés. E nessa caminhada, sangro e choro, mas não é nada que até mesmo um soldado em uma guerra injusta não tenha feito. Cada um tem a sua história, seus dramas, suas saudades, suas rosas e seus espinhos.

Olhando para trás, vejo tudo ficando pequeno, quase sumindo; é quase como estar em um trem, e pular pela janela não vai adiantar nada. Olho para frente, e forçadamente aceito o fato de que não posso retornar a um passado que, só agora, parece brilhante e maravilhoso; estou numa viagem só de ida. Faz-me pensar. E muito.

Música, por favor, e bons livros para esta longa viagem. Grato.

O ponteiro dos segundos parou. Eram exatamente quatro horas, quarenta e quatro minutos e quarenta e quatro segundos. O céu enegrecido só aparecia ocasionalmente; só quando a corpulenta massa de nuvens permitia. O brilho quase incomum da Lua atrás das nuvens iluminava o mar de forma curiosa, pois exercia uma força tão incrivelmente bonita que fazia cada partícula da água brilhar suavemente. O doce azul turquesa pulsava como a respiração de uma tartaruga sob o manto aparentemente intransponível de água.

Olhando da mais alta sacada das redondezas, uma pessoa deveras inspirada se arrepiou. Como era bela aquela vista. No horizonte, quase fora do alcance da visão, colossais nuvens se deslocavam vagarosamente, como se estivessem marchando, migrando, e por onde passavam, despejavam seus inacabáveis litros de água. Ainda na composição daquele belíssimo quadro que pintor algum jamais conseguiu igualar, centenas de árvores de todos os tipos bailavam ao ritmo da brisa marítima em perfeita sincronia. Aquilo tudo se assemelhava à composição de um concerto, onde cada componente tem o seu papel específico para a execução de um número perfeito.

Voltando para o seu aposento, o rapaz se deitou. A cobertura do quarto era feita de vidro, e naquele momento algumas gotas apostavam corrida sobre a superfície ao mesmo tempo em que todo o resto atingia o vidro no compasso de uma composição de Schubert. Sua mente era uma tempestade, e nela, todos os pensamentos se chocavam. A poucos metros dele, em um outro aposento, dormia seu coração. Interessante como o fenômeno que acontecia lá fora era a constatação de que, mesmo a quilômetros de distância, ele podia senti-la deitando sua cabeça em seu abraço. Esse pensamento o fez bem.

Quando voltou do turbilhão que consumia sua mente, percebeu que o calor do seu corpo conseguira embaçar a vidraça, interrompendo a visão do céu chuvoso. Ele se levantou.

O lado de fora da casa estava silencioso, calmo, fresco e perfeito para uma caminhada noturna. Decidiu que um passeio o faria bem, e que queria chegar ao mar antes do amanhecer. Há muito ele não se sentia livre como se sentia agora. A noite e suas ruas eram inteiramente dele; nenhum transeunte à vista. Havia liberdade até para cantar em voz alta, e foi o que ele fez, recitando cada verso de suas músicas preferidas. Frutos da loucura, da paixão ou de sabe-se lá o que – nem mesmo ele sabia –, vozes vindas das árvores, dos ladrilhos, do céu e dos carros acompanharam-no em cada frase pronunciada, colorindo o ar da noite com notas musicais suavemente desenhadas que dançavam ao seu redor. Ali, sozinho, ele gesticulava e cantava intensamente para si e para aqueles que amava em sua própria apresentação particular.

Uma hora e meia depois, precisamente antes do nascer do sol, seus pés descalços tocavam a areia. Em uma mureta, escreveu uma mensagem romântica da mesma forma que aqueles que amam o fazem nos troncos das árvores. Dirigiu-se à água, e no meio do caminho encontrou uma concha, a qual colocou no bolso. Pegou também um punhado de areia e guardou em um frasco. Eram pequenos “acionadores de lembranças” que ele tanto gostava de colecionar; era a forma que ele havia encontrado para se lembrar de tudo aquilo que importava, no momento em que lhe conviesse.

Seus pés tocaram a água, e quando ela chegou à metade de suas pernas, ele parou. A água estava fria, e o brilho que ele testemunhou momentos antes havia desaparecido. No fundo de sua consciência, ele sabia que quando a Lua se fora, levara o brilho consigo. Mas alguma parte da mente dele não descartava a possibilidade de que tudo aquilo ter sido apenas fruto de seu desejo de presenciar e viver o belo, de desfrutar de momentos de paz e de transcendência.

Enquanto estava ali, na água, a tempestade em sua mente havia se acalmado; tudo em seu devido lugar. No lugar de todo aquele brilho, ele depositou seus desejos e esperanças. E o momento não podia ser melhor, pois um novo ano vem aí.

Autor: Rafael Mendes

Uma de mil verdades

moonandrainEm um antigo, empoeirado e majestoso baú, cuja estrutura era forte e resistente, e cuja superfície carregava inúmeras marcas do tempo, foram encontrados quatro pergaminhos em ótimo estado de conservação. Em um deles, destacados por suaves manchas róseas, estavam os seguintes parágrafos:

O ar que respiro entra gelado em meus pulmões, nesta noite, mas sai quente o suficiente para formar aquela interessante nuvem de condensação que indica a direção do vento. A temperatura do lado de fora de minha casa é bem inferior à que encontro sob os aconchegantes cobertores de minha mais aconchegante ainda cama. Mas há paixão nas baixas temperaturas. São elas que forçam os seres humanos a ficarem juntos para conseguir o melhor e mais efetivo calor, o do corpo.

[...]

Tão bela é a noite quando minha visão é abençoada pela imagem de seu rosto… Seja pessoalmente, através de uma fotografia ou até mesmo quando minha memória te põe bem diante de meus olhos. As notas de nossas músicas quase se arrastam pelo denso e gélido ar desta noite, e fazem curvas por todos os detalhes de sua belíssima face, a qual me inspira, arrepia toda a extensão do meu corpo, e faz valer a palavra perfeição. Nem em sonhos encontro tanto amor e brilho. E, de tanto olhar, fico hipnotizado, viajo pelo mar de ternura que há em seus olhos, passeio pelos seus cabelos, repouso em seus lábios. Quantos são os mundos a serem explorados em seu tão simples e ao mesmo tempo complexo rosto? Numerosos são os devaneios em que me pego ao longo do dia, seja no parque, em frente ao meu lar, ou observando a Lua, como agora; e em todos eles, estou pensando em você.

Às duas da manhã, chovem estrelas sobre sua casa, que em minha imaginação são gotas vindas da Lua para indicar à noite a trilha da preciosidade que é o seu sorriso. Eu, sentado em meu jardim, apenas observo, penso em você e seu maravilhoso jeito de ser; sorrio com um olhar perdido, faço da música meu transporte para o seu lado, sinto sua pele sob a ponta dos meus dedos, e fecho os olhos para tornar tudo real.

Dentro de mim, uma infinita sequência de epifanias se desencadeia em uma fração de segundo. Ao longe, posso apostar, você dorme um delicioso e tranquilo sono, escalando as torres dos graus dos sonhos, já bem além de Alfa. E cá estou eu, sob esse luar magnífico, à companhia dos frutos da imaginação de Shostakovich e Desplat, fazendo valer a minha própria.

Obrigado pela inspiração.

Autor: Rafael Mendes da Silva

Unique

I’ve never found someone like you.
You’re like blossoming roses of the purest field. And, of course, you’re like a cold drop of water that touches the fresh untouched skin of the fourth born petal of the biggest, reddest and beautiful rose.
Could I have lived my life without your smile and your bright eyes? And could I have dreamed the way I dreamt without that midnight gaze surrounded by moonlight?
You, my dearest, are heartbeats in human shape. And I shall never forget your voice when I’m in silence; and I shall never fail any test if your face is alive in my memories.

Autor: Rafael Mendes da Silva

Um homem rasteja por um verdíssimo e amplo campo. Contrastando com a belíssima paisagem, seu rosto apresenta nulidade. Nota-se que já percorreu uma distância considerável: a relva esmagada foi formando uma trilha tímida pela colina. O cansaço parece ter vontade de gritar e se mostrar, pois força os músculos do homem a tremer de forma exagerada.
Um segundo homem – este trajando belas vestes e com expressão tranquila, mas curiosa – se aproxima.

- O que se passa contigo? – pergunta o segundo homem

O homem que rasteja solta um grunhido de esforço, mas não consegue responder à pergunta do homem que está de pé.
Ainda curioso, o segundo homem se aproxima do ser rastejante à sua frente, põe um dos joelhos no chão e uma mão no ombro dele.

- Ei.

Olhando de baixo para cima, o homem que rasteja responde com um olhar indagador, mas ao mesmo tempo desanimado. Era como se estivesse conformado com alguma agrura; como se já tivesse aceitado algum peso excessivo que houvesse se instalado em seus ombros.

- O que há? Por que você está rastejando? É certo que daí de baixo você pode contemplar este céu que apresenta uma rica mistura de azuis claros e escuros, mas você não poderá contemplar o roseiral na planície, e muito menos a torre a Noroeste, por mais que ela seja alta. Não poderá admirar o amplo e claríssimo lago que varia sua luminosidade de acordo com o período do dia. Além disso, não desfrutará de uma corrida pela relva e nem sentirá o vento macio tocando-lhe o rosto. Levante-se, meu caro! – Ele tinha um enorme sorriso no rosto, ao dizer tudo isso, e muito se assemelhava a personagens de filmes Hollywoodianos que tentavam animar o protagonista.

- Eu gostaria de ter um poder.

- Que tipo de poder? Queria voar? Ser invisível? Poder ler a mente das pessoas? Creio que você só poderá ter este tipo de poder em sonhos… Mas pelo menos poderá tê-los de alguma forma, não é? – respondeu, ainda com aquele belo sorriso no rosto. Logo se percebia que ele estava fazendo de tudo para animar o desesperançado que estava ali, jogado no chão da bela colina.

- Não… Não esse tipo de poder. Quero ter poderes para poder viver minha vida com o máximo de amor possível.

O segundo homem, a princípio, apenas encarou os olhos do homem que rastejava. Depois, mostrou um olhar de compreensão. O primeiro homem continuou:

- Quero poder pensar em viver feliz e sem preocupações, para que cada sentimento que saia de mim seja puro e não sofra interferências mundanas, sabe? – O segundo homem apenas acenava com a cabeça, dizendo que sim – Bem… Para ter esse poder, o qual me dará aquilo que quero, preciso da “chave” que abra esse “baú” que contém o poder. E essa chave, no nosso mundo, tem forma de valores materiais; são nossas moedas de troca. E é isso que faz o mundo ser um lugar de sofrimento. Você acaba tendo que dançar conforme a música; você tem que se submeter àquilo que não gosta para poder alcançar aquilo que gosta. É como uma travessia por um pântano, cujo fim traz a claridade. O grande problema disso tudo é a transformação pela qual a pessoa passa durante a travessia. Ela fica mais dura, fica fria, fica ranzinza e perde sentimentos. Para poder enfrentar melhor essa travessia, acaba vestindo mil armaduras. E o que garante que essa pessoa saberá – ou terá coragem de – tirar as armaduras quando alcançar seu graal? É isso o que me faz perder a vontade de correr pelas colinas; é isso o que me faz cair de joelhos e rastejar… Quero atravessar, mas não quero perder minha pureza. Queria uma alternativa… Queria uma salvação. Queria sair dessa guerra para poder viver meus sentimentos. Mas “quem disse que a vida é fácil”? De nada adianta reclamar ou pensar em desistir, pois isso nos jogará de volta à fossa, e seremos abandonados até mesmo pelo tempo. E quando percebemos isso, percebemos também que precisamos de mãos para nos segurar para que não tropecemos, caiamos e nos afoguemos. Somos todos dependentes. Aquele que se auto intitula “self made man” ou “lone wolf” não sabe bem o que sentir, ou simplesmente não manteve o amor no peito. Eu mantive, e sei que quero mais. Quero amor; muito amor; sempre amor.

O silêncio se manteve um pouco antes que o segundo homem se pronunciasse ou se movesse.

- Concordo com você. Mas é necessário algum sofrimento para que o progresso venha, mas mais forte ainda é aquele que consegue lidar com tal agrura sem perder toda a graça e pureza que se encontra dentro de si. Eu sei que você consegue, sei mesmo.

Estendeu a mão para o rapaz, que não hesitou em segurá-la.

- Você mesmo disse que precisamos de mãos para que façamos uma travessia segura.

Mãos dadas, o segundo homem se reergueu. Pôde, assim, enxergar o tal roseiral e teve vista privilegiada para a grande torre. Ao cair da noite, sentou-se e fingiu pintar o céu ao presenciar a aurora boreal e a Lua quase tocando o lago, agora negro. Sim, aurora boreal em pleno clima tropical. O que há de mais? Até isso se torna completamente plausível quando uma pessoa purifica o intangível e se mostra forte o suficiente para retirar suas armaduras nas horas certas.

Autor: Rafael Mendes

Wherever I May Roam

O seguinte texto é constituído de alguns fatos e de sonhos excêntricos (porém interessantes) e apaixonantes.

Os tênis deixam sua marca no solo. O caminho traçado fica ali, e jamais sairá. Vento e chuva podem cair, mas a essência não sairá, e isso o deixa fascinado. Aliás, quantas pessoas já não fizeram o mesmo caminho que ele está fazendo agora? E com quais intenções elas o faziam? Esse tipo de pensamento costuma atacá-lo, às vezes… Mas só às vezes. O pensamento tem estado distante, ultimamente. Distante, mas bem guardado, em uma fonte de felicidade. E isso é algo ótimo. Um pensamento bonito gera sorrisos, e sorrisos fazem o mundo continuar são.

Olha para trás, vê as pegadas no chão. Olha mais para trás: uma vista familiar. Conformado com a noite, segue seu caminho. Está indo para casa, e isso é algo maravilhoso. Afinal de contas, “não há lugar como o lar”.

O início de noite é uma espécie de mina de ouro dos bons pensamentos; dos pensamentos bonitos, aqueles que fazem pessoas sentirem arrepios e sorrirem. As luzes dos edifícios têm beleza no brilho, mas não podem nunca serem comparadas aos brilhos que vêm do céu. E nessa bela combinação de luzes que contrastam com o breu celeste da noite, ele pescou uma imagem de si mesmo. Depois disso, coletou mais outras dez, e as multiplicou. Juntou tudo, e viu que criara uma mistura interessante, mas, como sempre, bela.

Ela era assim:

“Um sujeito de terno se aproxima de uma moça de vestido florido. O cenário pode ser qualquer um, mas o sorteado foi uma pequena praça de Paris, onde centenas de pessoas tomam seus cafés em uma quente manhã do solstício.
A mente dele se encarregou de proporcionar a mais interessante dança para os dois, além de uma das mais belas músicas para fazer a trilha sonora do ato. Ao tocar a mão da moça, o rapaz ouve um piano ao longe, e ele lança todas as notas que constituem o belíssimo Clair de Lune, do brilhantíssimo Claude Debussy.

O chão, que era constituído de pequenos paralelepípedos, se torna um gramado nevado, onde os dois dançam uma valsa com traços de salsa e merengue. Antes que eu me esqueça de mencionar: estão usando o mais tradicional traje de dançarinos de tango.

Girando,  saltando, sorrindo e correndo ao som da música, eles atravessam a pequena praça. Apesar disso, não chamam atenção. As pessoas parecem mesmo é pensativas, gastando seus neurônios na fórmula para a solução de algum problema insolúvel, o qual seria resolvido se organizassem seus pensamentos de forma correta e – sempre – serena. De qualquer forma, nem mesmo um passo da dança que exigia subir nas mesas chamou a atenção dos quase-zumbis.

Em determinado momento, o céu chegou tão próximo da Terra que a atmosfera foi modificada, e eles, de alguma forma, puderam dançar em câmera lenta. O toque ficou mais macio; os olhos brilharam ainda mais; os lábios adquiriram mais vigor; os cabelos se ondularam no ar, como se estivessem submersos; os sons cessaram, e tudo o que se podia ouvir era a respiração lentíssima contrastando com os dois batimentos fortíssimos dos corações de ambos. E aí sim, tiveram certeza de que estavam apaixonados. Aquele intenso flerte os colocou sob um efeito tão sublime que nem perceberam que já estavam em outro lugar; nem sentiram as ondas batendo nas pernas.

O mar, à noite, é como um paraíso acolhedor dos que amam. Funciona como imã, é só perceber. A água refresca, é verdade, mas também purifica. E foi o que aconteceu no momento do beijo. De tão puro e sincero que este foi, todo o sentimento de existência, razão e amor foi renovado.

Com ar de extrema satisfação e felicidade, ambos se olharam e sorriram. O que se seguiu foi um longo e apertado abraço. Diviníssimo (se é que podemos aumentar algo que já é soberano) momento.

O adeus foi selado quando o abraço se desapertou. Num piscar de olhos, o garoto se viu vagando pelas bucólicas ruas de sua cidade, deixando rastros pelo chão e reconhecendo lugares que não visitava há algum tempo.

Poucos dias, poucas horas; mil lugares e número suficiente de sentimentos.

De tudo isso, só podia concluir uma coisa. Recitou em voz alta para si mesmo: Por onde quer que eu vague, trarei, guardado no coração, o melhor de tudo o que há.

Autor: Rafael Mendes

De tanto sonhar…

“Passo meus pés por tua rua, e trago em minha mão um coração. Não ‘um’, aliás, mas ‘o’. O coração que pode te amar; que pode te fazer suspirar e se lembrar eternamente de detalhes que nem mesmo o cérebro mais atento poderia registrar. Esse coração, instrumento dos sentimentos divinos e sublimes, está, agora, muito bem guardado em um corpo. Esse corpo é, por escolha própria de seu dono, guiado pelo puríssimo, inconfundível e valioso sentimento do amor.

Se tiveres alguma dúvida de que é esse coração aqui que pode te fazer sentir amor, olhe para o céu noturno, e ali encontrarás tua resposta. Mas quando digo amor, não me refiro ao amor banal que é praticamente consumido pela grandessíssima parte dos iludidos. Quando digo amor, me refiro ao brilho que os olhos do amado emitem quando fitam seu par; refiro-me ao vermelho dos lábios após o beijo caloroso que, o casal sabe, só é perfeito porque acontece entre eles; refiro-me ao caminhar de mãos dadas que transmite segurança e união, seja lá onde estejam; refiro-me à saudade tão forte que se sobrepõe à sede e à fome; refiro-me à tranqüilidade e explosão de felicidade que flui no corpo dos dois, quando estão unidos.

Esse amor, caso queira saber, é a chave para lugares cheios de sensações e descobertas jamais imaginadas, os quais todos temos dentro de nós, mas que pouquíssimos conseguem acessar. Aquele que entra, jamais quer sair, pois encontra tudo o que todos sonham encontrar. Sabe o que tem ali? Ah… Para saber, é preciso ter a chave, e eu tive a chave o tempo todo. Mas aquilo que quem detém a chave precisa realmente saber é qual fechadura abrir.”

Autor: Rafael Mendes da Silva

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