Sentado, rodeado por chuva forte, em meio à noite, e iluminado por uma fogueira cheia de espetáculos discretos, fortes, imponentes e apaixonantes, Martino tocou a ponta da caneta no papel, e a mágica de criar histórias começou.
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Música. Música para todos nós. Música para Martino e seu texto.
Essa música, porém, é algo da cabeça de Martino. Não há som ali senão o da chuva e do vento; o som do silêncio da noite.
Ele tem uma trilha sonora maravilhosa em sua cabeça, nesse momento. Ah… um dia para recordar…
São muitas as fontes que o inspiraram nesse. Foram palavras, sons, músicas, melodias, momentos, relatos, desabafos.
Levantou-se.
Olhou para o texto.
Era, de certo modo, uma história sobre os dois lados de alguma carta: o lado de quem tem tudo, e o lado de quem não tem.
Chegou ao ouvido de Martino, talvez durante algum devaneio, que amar é como correr sobre terreno acidentado empunhando uma faca. Enquanto conseguimos nos manter em pé, nos sentimos bem, capazes de manter a situação sobre controle. Mas quando caímos…
Martino encostou-se em pé na pedra, e começou a ler para a noite o que sua alma contou ao papel.
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Havia uma rede e duas pessoas, e isso era tudo. A única coisa que importava além disso, era o céu. E nele, apenas a Lua e uma estrela bem brilhante dividiam a atenção dos dois na rede.
Durante o momento de fascinio provocado pelo brilho excessivo da tal estrela, ela diz:
- É um planeta.
E de fato, era.
Ambos deitaram-se à rede. O suave balanço criava uma suave brisa.
E se pararmos para olhar a situação de fora, veremos que o céu é deles. Só deles.
As mãos acariciavam-se, os olhares se encontravam, os lábios se tocavam.
Dentro do peito dele, o lugar frio e empoeirado que era seu coração, começava a ficar quente; uma faísca começava a piscar. Luz e calor retornavam ao lugar de onde não deveriam sair. Isso tudo é vida pura, nua e crua, tendo seu ápice.
As duas pessoas sorriem mutuamente, pois têm, mesmo que pequena e discreta, uma conexão.
E essa conexão veio como o destino quis, não é?
Pois bem, o olhar e o toque faziam o céu brilhar.
“Era como eu pensava. Ela, esse momento, tudo isso. Justo como eu imaginava.” Pensou o garoto, com um sorriso interno, dando mais força ao externo. Tudo dentro dele percorria o caminho para algo similar a uma reanimação.
E quanto a ela? E quanto a ela?
Seu sorriso não mentia. Suas palavras, muito menos. Seu olhar, nem se fala. Que lindo anjo ela era.
O cabelo, os olhos, os lábios… Queria encarar aqueles olhos até conhecê-la por completo; e queria constantemente beijar aquela boca.
É, ela era uma mulher, e como tal, tinha seus segredos por trás do rosto de olhar suave, sedutor, e da pele angelical.
E ele? E quanto a ele?
Ele adorava seus charmes, e principalmente as palavras proferidas por ela.
Ele se segurou e confiou nas palavras que ouviu e havia lido.
Ela disse:
- Destino.
E continuou:
- Foi o destino que te colocou na minha frente.
Explicou os motivos. Motivos esses que foram completamente convincentes.
Sim, ele acreditou em tudo o que ela disse; ele abraçou cada palavra que saiu por aquela linda e delicada boca como verdade.
Aproveitou para pensar em como é impressionante a mágica de transformar um lugar frio e vazio em um lugar feliz; em um lugar bonito e repleto de vida.
Passou o braço por trás da cabeça dela, puxou-a para si. Deu-na um longo beijo. Como estava gostando de estar ali! Ninguém sabia melhor do que ele.
Ela sorria para ele, e isso trazia uma conclusão:
Quando havia um sorriso no rosto à sua frente, e ele era o “culpado” por aquele sorriso, a chama queimava muito mais forte, trazendo assim a luz de seu próprio sorriso.
Amava isso.
Mas até que ponto um sorriso pode segurar o fogo?
Talvez ele descobrisse isso cedo ou tarde.
“Ela já tem outra pessoa.” Isso ecoou na noite. Mas quem disse isso?
Ele olhou para ela, e o olhar dela já era outro.
Além disso, não era mais noite: a manhã veio abençoar o mundo.
Infelizmente, esse amanhecer não trazia felicidade a ele.
O olhar da menina literalmente dizia: “Eu gosto de você, mas já pertenço a outra pessoa.”
“Mas você ainda gosta dessa pessoa?” O olhar do rapaz ‘perguntou’.
“Ainda sinto carinho por ela, sim.”
Os olhares continuaram conversando.
Ele deitou no colo dela, e ela acariciou seu cabelo.
Conversaram durante longo tempo, e as palavras que se seguiram contaram-no todo o passado, todas as lembranças, tristezas e felicidades dela.
Apesar de estarem bem juntos ali, aquele momento final pareceu como o término de algo que estava apenas começando a florescer.
Não era o que ele queria.
É sempre pior quando temos que cuidar do coração quando alguma chama é apagada precocemente.
Dói mais. É o que se sente.
Apesar de triste, ele aceitou. Mesmo sabendo que estava abrindo a mão e deixando o vento levar como leva grãos de areia algo que lhe acendia o peito.
Acontece que essa chama já pertence a alguém.
É sempre ruim ser o segundo, mesmo que por um segundo.
~
Ao terminar de ler, Martino teve uma longa conversa com a chuva e com a noite.
- Não sei… Esse texto foi algo parecido com uma faísca; algo que mal nasce e já morre. Apesar de triste, é feliz. Acabou, mas aconteceu. É interessante pensar sobre isso. O rapaz da história deve saber lidar com sentimentos. Aparentemente, já tem suas cicatrizes.
Autor: Rafael Mendes da Silva