O seguinte texto é constituído de alguns fatos e de sonhos excêntricos (porém interessantes) e apaixonantes.
Os tênis deixam sua marca no solo. O caminho traçado fica ali, e jamais sairá. Vento e chuva podem cair, mas a essência não sairá, e isso o deixa fascinado. Aliás, quantas pessoas já não fizeram o mesmo caminho que ele está fazendo agora? E com quais intenções elas o faziam? Esse tipo de pensamento costuma atacá-lo, às vezes… Mas só às vezes. O pensamento tem estado distante, ultimamente. Distante, mas bem guardado, em uma fonte de felicidade. E isso é algo ótimo. Um pensamento bonito gera sorrisos, e sorrisos fazem o mundo continuar são.
Olha para trás, vê as pegadas no chão. Olha mais para trás: uma vista familiar. Conformado com a noite, segue seu caminho. Está indo para casa, e isso é algo maravilhoso. Afinal de contas, “não há lugar como o lar”.
O início de noite é uma espécie de mina de ouro dos bons pensamentos; dos pensamentos bonitos, aqueles que fazem pessoas sentirem arrepios e sorrirem. As luzes dos edifícios têm beleza no brilho, mas não podem nunca serem comparadas aos brilhos que vêm do céu. E nessa bela combinação de luzes que contrastam com o breu celeste da noite, ele pescou uma imagem de si mesmo. Depois disso, coletou mais outras dez, e as multiplicou. Juntou tudo, e viu que criara uma mistura interessante, mas, como sempre, bela.
Ela era assim:
“Um sujeito de terno se aproxima de uma moça de vestido florido. O cenário pode ser qualquer um, mas o sorteado foi uma pequena praça de Paris, onde centenas de pessoas tomam seus cafés em uma quente manhã do solstício.
A mente dele se encarregou de proporcionar a mais interessante dança para os dois, além de uma das mais belas músicas para fazer a trilha sonora do ato. Ao tocar a mão da moça, o rapaz ouve um piano ao longe, e ele lança todas as notas que constituem o belíssimo Clair de Lune, do brilhantíssimo Claude Debussy.
O chão, que era constituído de pequenos paralelepípedos, se torna um gramado nevado, onde os dois dançam uma valsa com traços de salsa e merengue. Antes que eu me esqueça de mencionar: estão usando o mais tradicional traje de dançarinos de tango.
Girando, saltando, sorrindo e correndo ao som da música, eles atravessam a pequena praça. Apesar disso, não chamam atenção. As pessoas parecem mesmo é pensativas, gastando seus neurônios na fórmula para a solução de algum problema insolúvel, o qual seria resolvido se organizassem seus pensamentos de forma correta e – sempre – serena. De qualquer forma, nem mesmo um passo da dança que exigia subir nas mesas chamou a atenção dos quase-zumbis.
Em determinado momento, o céu chegou tão próximo da Terra que a atmosfera foi modificada, e eles, de alguma forma, puderam dançar em câmera lenta. O toque ficou mais macio; os olhos brilharam ainda mais; os lábios adquiriram mais vigor; os cabelos se ondularam no ar, como se estivessem submersos; os sons cessaram, e tudo o que se podia ouvir era a respiração lentíssima contrastando com os dois batimentos fortíssimos dos corações de ambos. E aí sim, tiveram certeza de que estavam apaixonados. Aquele intenso flerte os colocou sob um efeito tão sublime que nem perceberam que já estavam em outro lugar; nem sentiram as ondas batendo nas pernas.
O mar, à noite, é como um paraíso acolhedor dos que amam. Funciona como imã, é só perceber. A água refresca, é verdade, mas também purifica. E foi o que aconteceu no momento do beijo. De tão puro e sincero que este foi, todo o sentimento de existência, razão e amor foi renovado.
Com ar de extrema satisfação e felicidade, ambos se olharam e sorriram. O que se seguiu foi um longo e apertado abraço. Diviníssimo (se é que podemos aumentar algo que já é soberano) momento.
O adeus foi selado quando o abraço se desapertou. Num piscar de olhos, o garoto se viu vagando pelas bucólicas ruas de sua cidade, deixando rastros pelo chão e reconhecendo lugares que não visitava há algum tempo.
Poucos dias, poucas horas; mil lugares e número suficiente de sentimentos.
De tudo isso, só podia concluir uma coisa. Recitou em voz alta para si mesmo: Por onde quer que eu vague, trarei, guardado no coração, o melhor de tudo o que há.”
Autor: Rafael Mendes