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Quem nunca ouviu aquela famosa frase, “as pessoas não mudam”? Ela ficou assim, tão conhecida, porque a maior parte das pessoas pode se identificar com ela. Estas pessoas viram outras pessoas que não se davam ao trabalho de tentar e outras que, apesar de qualquer esforço, jamais mudavam. Tais pessoas, apesar das circunstâncias, positivas ou negativas, viam diante de seus olhos a oportunidade de mudar – ou melhor, melhorar -, mas não a abraçavam.

É difícil entrar na cabeça de uma pessoa e desvendar os empecilhos aparentemente pétreos que a impedem de mudar. Em alguns casos, a pessoa nem mesmo sabe que os tem. E, aliás, temos que nos perguntar: as pessoas têm, mesmo, que mudar? Há uma série de questionamentos e de barreiras antes da decisão final – antes do esforço definitivo – de mudar.

Mas a única pessoa que pode mudar alguém é ela mesma. Não há esforço ou punição alheia que possa mudar alguém. Se alguma pessoa é de um determinado jeito e ainda não conhece, em seu âmago, as consequências – sejam estas direcionadas a ela mesma ou aos outros – de ser daquele tal jeito; se essa pessoa, apesar das inúmeras vezes em que deu de cara no chão, continua em seu caminho tortuoso (e isso se souber que o caminho é, de fato, tortuoso), ela não vai mudar até que, algum dia, em dado momento, algo dentro dela – algo como uma epifania – estalar um dedo e acender uma luz, delatando fielmente seus erros e abrindo a porta da possibilidade de se aprimorar.

Esta tal epifania acontece, geralmente, para aqueles que erram e, consequentemente, amadurecem. É a velha formula: más escolhas geram experiência, que gera sabedoria. A má escolha pode te trazer sabedoria, mas vai te trazer dor, que é o preço a se pagar por não ouvir aqueles que são experientes e que gostam de você; aqueles que previram seu tombo antes mesmo de você começar a andar.

Como posso falar com tanta certeza sobre este assunto? Na verdade, acho que todos têm a capacidade – e se ainda não têm, terão, um dia – de falar por conta própria. O meu caso é o da prática: vivi e aprendi. Sei, pois, tendo vivido e aprendido, que as pessoas podem, sim, mudar. Se quiserem.

Reconhecer erros, buscar – no passado distante, no passado recente, e no próprio presente – os motivos que te levam a ter o tipo de conduta que tem, entender e conhecer a si mesmo, buscar melhorar, apesar da situação estável em que se encontra… Tudo isso é extremamente importante para você. E se você se importa com as pessoas que te amam e que querem seu bem, quero que saiba que a atitude de se auto aprimorar é importante para eles também.

A melhor coisa que posso dizer, neste momento, é que eu vejo um novo mundo, agora. Mas quem mudou não foi ele, fui eu.

that moment

 

- Bom dia.

Para ela, as palavras vinham de uma distância considerável, como se tivessem sido proferidas do alto de um canyon. Ecoavam pelas paredes de seu cérebro, estava despertando.

Ele, por sua vez, a observava de pé, ao lado da cama. Tinha preparado uma surpresa para ela, e achava que ela ia gostar.
Percebeu que o seu primeiro “bom dia” não tinha surtido efeito, e que ela ainda dormia calmamente. Sem pressa, parou e fruiu aquele instante, sabendo muito bem que é este tipo de momento que torna a vida tão fascinante e tão boa de se viver. O coração acelerou, e ficou feliz com a constatação de que encontrava, todos os dias, o amor da sua vida na mesma pessoa. Sorriu. Observou os traços daquele que era o rosto que via todos os dias pela manhã, a sua motivação diária para continuar firme em seu caminho. Era o ciclo perfeito e a vida ideal. Colocou a bandeja com o café da manhã ao lado da cama, observou mais uma vez o rosto dela e chamou.

- Bom dia, coisinha linda. – Deu um beijo leve na boca macia dela. A luz leve do sol que entrava pelas brechas da persiana iluminava seu rosto, dava um tom dourado aos pequenos fios de barba.

O beijo agiu como uma faísca no corpo dela, e ela se acendeu de repente. Sem susto, nada repentino, mas sim com suavidade e pulmões cheios de ar.

- Bom dia! – respondeu ela, abrindo os olhos, espreguiçando-se na camisola larga, abraçada e engolida pelos lençóis e cobertores espalhados pela ampla cama.
– Dormiu bem? – A pergunta foi feita com um sorriso largo no rosto, o sorriso da felicidade, o sorriso que é o sinal claro de que aquilo que é bom vive; o sorriso de quem, provavelmente, está guardando algo bom para daqui a pouco.
– Sim! – Pulou no pescoço dele, puxando-o de volta pra cama, enchendo-o de beijos e, depois, novamente relaxando à penumbra.

Se havia algo que ele gostava naquele tipo de momento, era do bom-humor que a acompanhava a cada despertar. Não havia tempo nublado, frio ou calor que a fizesse acordar com a cara fechada ou com palavras secas.

- Já que o sono foi bom e já que você acordou tão bem, vou te contar que… – pegou a bandeja – fiz um café da manhã pra você. – havia um tom de certa forma tímido na voz dele, como se ele estivesse esperando pela reação dela. Era aquele vão no tempo que durava tanto um milésimo quanto uma hora.

O olhar de surpresa e felicidade no rosto dela era exatamente o que ele queria ver. Era a prova de que o amor não era um emaranhado; não era algo tão complicado que era preciso arquitetar e planejar exaustivamente para que se atingisse a perfeição. Era, por sua vez, a pureza da simplicidade.

Gravou em sua mente aquele olhar feliz, guardou em seu coração, trancou a sete chaves, jogou as chaves fora. Era, agora, acervo permanente dos corredores de seu coração, e passaria por ali todos os dias de sua vida.

- Que coisa linda! Você fez um coração também! – Disse isso ao constatar que ele se ateve aos detalhes, fazendo da fatia de pão um coração. Tão simples, mas tão significativo.

- E é tudo integral. Tem vitamina de frutas… Nada gorduroso… Só a Nutella.

Em menos de dez minutos, a bandeja estava vazia.

- Acertei tudo?

- Quase tudo. Podia ter colocado mais Nutella. – riu.

A risada breve e sincera era como flechas de amor disparadas no peito. Sabe aquela sensação de expansão no peito, quando tudo parece leve e dormente? É exatamente essa sensação.

- Vou trazer o pote inteiro, na próxima vez. – e dessa vez, riram juntos. – Mas tenho outra surpresa.

Dessa vez, ele saiu do quarto e voltou com uma caixa bem bonita, do tamanho de uma caixa de sapato. Ela tinha um estilo clássico, mas ainda assim era toda ornada, tinha cores vivas, uma fechadura prateada com um fio vermelho a contornando. Gravado na madeira, uma frase: “Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde”.

Sentou na cama, olhou-a nos olhos, pôde contemplar mais uma vez aquele olhar de felicidade. Ela não tirava os olhos da caixa.

- Abra.

Ela tomou a caixa nas mãos, a contemplou, passou os dedos pelas palavras gravadas fundo na madeira, tomou a chave de prata que se encaixava perfeitamente em um dos “q”s da frase gravada, a colocou na fechadura e girou.

Ao abrir, viu ali dentro algo que brilhava mais do que qualquer outra coisa que já tinha visto. Um brilho dourado dançava com um brilho prateado, assim como com um brilho branco. A luz caia sobre seu rosto como um véu de luz, e sua pele adquiriu um tom majestoso naquele momento.

- Meu Deus. É…

- Sim. É exatamente isso. – disse ele, com um sorriso enorme no rosto.

- Eu… – Ela estava muito feliz, mal acreditava no que via.

- Eu quero que saiba que eu te amo. Eu te amo tanto… Eu nunca vou deixar de te amar. Nunca. É impossível. Nada é bom o suficiente quando eu não estou com você. Longe de ti, não aproveito as horas do dia, não sou capaz de sentir o perfume das rosas. As horas passam mais devagar que um ponteiro quebrado em um relógio sem vida. Os momentos em que posso dizer que te amo são aqueles em que toda e qualquer tensão ou negatividade sai de mim como uma cachoeira contida. Olhar em teus olhos e fazer minhas palavras livres para que você possa escutar, sentir seu perfume e me deleitar, tocar-te e me sentir vivo e feliz por viver, isso sim é o que me faz bem. Amo você e amo te ver feliz e amo te ver cada dia melhor do que era no dia anterior. Gosto de te proteger, de te dar calor e de te fazer sorrir. Não há nada que me faça tão feliz quanto a sua própria felicidade. É algo tão forte que, quando estou longe de você, me vejo preso em questionamentos. Quando digo que te amo e que o que realmente mais gosto é de ver a sua felicidade, sinto que isso é feito por mim com imenso amor e dedicação porque me traz uma sensação plena, sublime. Só posso chegar à conclusão de que quem diz que a gente é egoísta quando se trata dos outros – porque sempre buscamos a nossa própria felicidade – está certo, pois ao te fazer feliz, fico eu mesmo feliz, e isso cria um ciclo tão pleno e repleto de amor que não posso senão aceitar o fato de que sou a pessoa mais feliz do mundo. Sou, pois, um egoísta por te amar incondicionalmente. Eu te amo, meu amor. Serás para mim única no mundo, e eu serei para ti único no mundo.

 

Esta foi, pois, uma das manhãs no mundo do sublime, no mundo em que o amor – este sentimento tão amado por muitos e tão condenado por outros – reina.

É tempo de calor

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Fecho os olhos, vejo eu e você, minha mão na sua, nossas bocas unidas. Onde estão nossas blusas? Não sei, mas não quero descobrir. Descubro, porém, sua pele, e por ela passo meus lábios. O gosto forte de flores é um mistério, o qual soluciono ao ver que nossa cama é feita de milhares de pétalas coloridas, todas provenientes dos buquês e buquês que mandei jogarem dos balões, os quais, se olharmos com atenção, criam misturas de cores curiosas no céu: todas elas lembram a cor inesquecível dos seus olhos.

Minha nossa, que obra de arte é esta em minha cama? Olho para você e paro, contemplo, tudo com a ansiedade de quem está sob a aurora boreal pela primeira vez.

Quero tê-la, quero prová-la, quero tudo. Tenho cada parte do meu corpo arrepiada, tremendo, transcendendo. Chego tão perto de você que posso ouvir o lento bater do seu coração. Esta sensação tão singular, tão indescritível, tão inesquecível e tão gostosa é exatamente o que me move todos os dias; é ela que não sai nunca de minha cabeça, domina-me e obriga-me a pensar em você (como se fosse algo difícil fazê-lo).

Amo-a, tenho-a em meu peito a todo o momento, em todos os lugares. Levo o travesseiro e os cobertores do carro para nosso ninho de amor, levo-lhe o café da manhã na cama, coloco tuas músicas preferidas como nossa trilha sonora, olho tua foto e choro ao menor sinal de distância entre nós.

Foco. Estou confuso em meio a tantos devaneios; sinto-me como aquela criança que se perde gostosamente em meio aos lençóis que sua mãe pendurou nos varais do lado de fora da casa. Uma memória da infância me ocorre, onde o sol bate com força nos tecidos e, neles, vejo as sombras da mulher que viria a ser, no futuro, o que Susan Delgado foi para Roland Deschain.

Volto a mim, solto os devaneios como quem solta a taça de vinho cheia até a borda. Antes que eles caiam e se despedacem no chão, beijo-te, dou-lhe o que é meu, torno-te minha; transformo “eu e você” em “nós”.

A Glimpse Into Pure Passion

A visão da janela é maravilhosa. Não sei se é a simples antecipação daquilo que está por vir ou se é o lento cair da noite e a consequente baixa da temperatura. De qualquer forma, ali estou, piscando como num sonho, quando ela surge. Os olhos tão puros e inocentes são uma fachada; a boca, de aparência tão suave, uma armadilha. O balançar do cabelo faz cada segundo valer por dez, e posso fruir aquele momento exatamente como quero. Vejo-a se aproximando de mim com um sorriso de canto de boca e um leve balançar de corpo.
Nossas mãos se dão, os sorrisos se abrem: esse é o momento pelo qual eu estava esperando.
Mais um flerte, e o beijo (ou devo chamar de encontro de almas?) acontece.

Se um beijo como este pudesse ser pintado por algum artista veterano, experiente, teria todas as cores possíveis, os mais múltiplos tons, brilhos infinitos e uma disposição totalmente dinâmica.

O cérebro percebe o estímulo e manda o coração trabalhar. Em uma fração de segundos, minhas veias pulsam de forma perceptível a olho nu; o sangue faz seu trabalho e irriga com ostensividade cada centímetro de meu corpo, que, por sua vez, se arrepia e sente a vida de forma crua, visceral.

Mãos nas cinturas, aceleram-se e intensificam-se os toques, surge o calor, respiramos aceleradamente; mal podemos nos segurar.
Tudo ao nosso redor treme, o ar fica mais denso: o ambiente responde ao nosso estímulo.

Após a explosão, vem a calmaria, mas continuamos a nos beijar. O aperto forte na cintura e o segurar intenso de cabelos se transformam em uma carícia no rosto, um suave passar de mãos pelos braços. O abraço é mais colado ao invés de mais forte, o beijo é mais carregado do que explosivo. Deleito-me e percebo o deleite dela, estou em êxtase.

Então, como a tempestade que suavemente se aquieta, lentamente separamos os lábios, abrimos os olhos, encaramo-nos e sorrimos. As mãos se dão por um instante – a energia flui livre de um corpo para o outro – e logo em seguida se separam.

Vejo-a de costas, caminhando, os cabelos me hipnotizando por um instante antes de desaparecerem, me deixando apenas com a visão da janela. A noite já caiu, e a temperatura já baixou.

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ImagemCerta vez, em um lugar onde penas caíam como chuva e onde pétalas padeciam mais rápido que uma faísca, um homem solenemente prostrou-se perante um trono flamejante e iniciou uma conversa. Falou sobre uma infinidade de assuntos e sobre mazelas e bênçãos que haviam caído em suas mãos. Uma voz vinda do trono – que encontrava-se vazio – pediu, então, detalhes sobre a trilha que tanto havia deixado calos nos pés do homem e da qual seu todo tanto se queixava.

Puxando o capuz que cobria a cabeça, Martino olhou para cima e começou:

“Cada palavra e ação deles me mandavam para o inferno, sem saber que eu já estava lá. Ecoava-se, em minha cabeça, com insistentes repetições, o pertinente questionamento: estou louco? Matava-me a curiosidade de saber se a insanidade já habitava meu ser. Disso eu não podia duvidar, levando-se em conta o fato de que eu estava oco, vazio. Meu seguro preenchimento evaporara, e deixara apenas minha carcaça para os parasitas mentais e psíquicos, que com muita vontade, salivando em ansiedade, se apossavam de meus mais particulares domínios. Sentia-me um zumbi, completamente à mercê das insanas vontades dos pensamentos vis que eu já não conseguia combater. Meu olhar vazio me denunciava, a tremedeira gritava para todos ao meu redor que eu estava fraco mentalmente, o pânico em minha feição era a obra de arte dos artistas da destruição, que orquestravam em mim seu mais novo plano.
Como monumento em ruínas, minha pessoa se decompunha. Ao meu redor, boas almas choravam lágrimas de – apesar de incansável esforço – impotente desejo de segurar cada tijolo que caía de minha estrutura. Eu mesmo lamentava a destituição daquilo que, até pouco tempo antes, julgava ser uma fortaleza inabalável e acolhedora. Sem forças de qualquer tipo, assisti passivo a tudo aquilo que me acontecia, como um camponês assiste à sua plantação ser tomada por uma praga.
Um baque surdo começou a atingir meu peito com timidez, repetidas vezes. Demorei um bom tempo para percebê-lo, mas quando isso aconteceu, gritei a mim mesmo: “Céus! Cá estava a cura, e eu nem a percebi!” E nem deveria, mesmo. Percebi, com felicidade, que o tempo era deveras cruel, assim como a dor, mas ambos eram supremos mestres, e eu os agradeço. Jamais uma rocha sólida chegou a ser David de Michelangelo sem sofrer, por longos períodos de tempo, constantes lacerações e lapidações. Pois foi o que me aconteceu. E agora, cá estou novamente, de volta, melhor do que nunca. Não há demônio ou algum de seus pseudo-seguidores que venha a jogar sequer uma farpa sobre minha renovada obra, meu renovado ser. E se houver algum que ousá-lo, digo: que tenha cara e coragem suficientes para peitar a mim e às asas que me circundam.
Findada está a época do excesso da suavidade e da polidez não merecida. A fleuma ainda existe, e sempre existirá, mas a premissa ‘ação e reação’ ganhou poltrona privilegiada à minha mesa.”

Ao fim do discurso, Martino sentiu compreensão emanando do trono enquanto estalos de madeira em brasas cortavam o silêncio. De trás dele, porém, uma voz expressou: “Não pude deixar de notar uma alteração de humor quando a ultima frase foi pronunciada. Entendo, porém, que você ainda está abalado, tenho tato – olhe como sou nobre – para perceber que o aprendizado está ajudando-o a se estabilizar com maestria.”

Martino reconheceu aquela voz com um arrepio, e alcançando rapidamente a parte de trás do trono, não menos do que arregalou os olhos ao confirmar a suspeita de quem estava ali.

 

-

 

A continuação será postada em breve.

 

Autor: Rafael Mendes da Silva

Com os pés na Cidade do Rock

O Rock in Rio de 2013 foi o festival mais lindo que tive o prazer de presenciar. Depois de dois dias de shows lindos, épicos, sensacionais, fica difícil coletar palavras que possam descrever de forma fiel aquilo que meus olhos puderam ver e meus ouvidos puderam ouvir.
A sensação de estar no epicentro da nata musical por dois dias é de fazer a alma vibrar dentro do corpo, querendo sair e se expandir.

Não dá pra esquecer, por exemplo, a sensação de ver Jerry Cantrell solando fielmente cada uma das músicas mais lindas do Alice in Chains, que injetou adrenalina nas mais de 90.000 pessoas ali presentes; ver o DuVall impondo a presença no palco; e chorar ao som de Nutshell para depois ter o espírito elevado por Rain When I Die: uma setlist maravilhosa.

Foi divertido ver a cara das pessoas quando o Ghost entrou. Se todo mundo entendesse o que as músicas deles falam, iam ficar tão levemente impressionados quanto as letras são leves. “E esse padre aí? Vai rezar missa?” e “Esses cara sim, são do demo” foram alguns dos comentários que ouvi. Tocaram muito bem, o som saiu redondo, a setlist foi muito boa e eu curti a voz do Emeritus ao vivo. Algumas pessoas só não entenderam muito bem a essência do show; queriam uma coisa brutal, que não é exatamente o estilo deles. Queriam o Papa fazendo headbanging e coisas do tipo.

Meu Deus, o que dizer de Metallica? MEU DEUS. A sempre existente sensação de arrepios ao ver O Bom, o Mau e o Feio no telão, enquanto Ecstasy of Gold prepara a multidão pra mais um show HOMÉRICO. Abriram com Hit the Lights, só pra tacar fogo no público, e emendaram com Master of Puppets, logo de cara. O público cantava de forma a abafar a voz do James, de tanta sede de metal, e idolatrava a banda, que, por favor, é totalmente digna de veneração. Trinta e dois anos de carreira e ainda é headliner do Rock in Rio. Como diz a letra de Whiplash, “we will never stop, we will never quit, ’cause we are Metallica”; dito e feito, os caras nunca param, e mantém o nível dos shows de forma totalmente satisfatória.
Afora todos os hits que eles tocaram, achei totalmente FODA o fato de eles tocarem And Justice for All, Battery e Wherever I May Roam. Cantar todas as músicas a plenos pulmões, mesmo morrendo de sede, calor e cansaço, ter a adrenalina pulsando como a de um soldado, ver as vozes da multidão se tornando uma só e enxergar de perto, da grade, nas pupilas deles, a satisfação de ter fãs tão fiéis e fissurados. IMPAGÁVEL. Consegui também aumentar minha coleção de souvenires: em 2011 eu havia conseguido a palheta que o James usou, e agora consegui a do Kirk. YEAH!

O dia 22 trouxe sensações bem diferentes das do dia 19.

Destruction e Krisiun MONSTRARAM no Palco Sunset. Sentir o pedal duplo vibrando nos pulmões, passando pelo corpo… Isso é uma sensação MUITO BOA. A rodinha já estava louca antes, ficou insana quando fizeram cover de Venom.
Sepultura foi legal nos dois dias, mas preferi neste. Tocaram mais músicas deles, das antigas (mosh pit de Inner Self foi legal). Também foi legal quando o Zé Ramalho entrou, mas o peso característico do Sepultura deu uma diminuída, e a galera começou a se dirigir ao Palco Mundo para o show MONSTRO que seria o do Slayer.

Já havia alguns anos que eu tinha ido ao meu primeiro show do Slayer. Eu era menor, e entrei na minha primeira rodinha punk lá. Se eu soubesse que, alguns anos depois, presenciaria um show desses, teria entrado em colapso.
A setlist foi INTEIRA de porrada, só música boa (óbvio) e pessoal insano. A voz do Araya, inabalável, continua a mesma coisa incrível. Senti falta do Hanneman; ele foi homenageado pela banda durante o show. Mesmo assim, o Gary Holt conseguiu mandar muita bala e segurou a bronca. Senti falta também do Dave Lombardo (Lombardo is the King), e o prefiro ao Bostaph, mas tá valendo.
O que o mosh pit do show do Slipknot teve em 2011 de tamanho, essa do Slayer teve de intensidade, NOSS. O pessoal ficou completamente fora de si durante TODAS as músicas, e principalmente durante as quatro últimas, que vieram num combo de Seasons in the Abyss, South of Heaven, Raining Blood e Angel of Death.

Findado esse marco do dia, foi a vez do Avenged Sevenfold, que assisti um pouco de longe, bebendo água pra ver se conseguia recuperar alguma corda vocal (perdi todas no Slayer) antes do show do Maiden. O pessoal cantou tudo em uníssono, e os fãs ficaram bem felizes. Alguns fãs do Maiden começaram a gritar, no intervalo de uma música: “Olê, olê, olê, olê, Maiden, Maiden”, e o Shadows respondeu: “Humm… Há uma competiçãozinha aqui. Tô gostando, continuem. A gente fez umas turnês com o Maiden, há alguns anos, e eles são realmente muito gente boas”. Ganhou a galera pela diplomacia.

Pra fechar a noite e o festival também, uns caras aí, umas lendas; o Iron Maiden. Eu nunca tinha ido a um show deles, e sempre tive vontade de ir. Cem mil pessoas saíram de lá com um sorriso quase humanamente impossível no rosto, e eu estava no meio deles. O Maiden regeu a legião de fãs como um maestro veterano rege uma orquestra profissional.
O que é a presença de palco do Bruce?! O cara tem 55 anos e corre, pula e se movimenta como um adolescente, tudo sem deixar a voz poderosa padecer. Não há mistério no fato de ele ser idolatrado pelos fãs; toda a energia que alguém por ventura viesse a perder, era suprida pelo poder dele.
Ver o Harris fazendo a metralhadora com o baixo foi uma coisa que eu sempre quis ver, e é DEMAIS! Também teve o Nicko fez um breve solo de bateria, coisa que não costuma fazer.
Não foi apenas um show, foi um espetáculo; você não vai lá apenas para apreciar a música maravilhosa deles, mas também para se sentir dentro de um mundo exclusivo que surge ali, durante um par de horas, e onde você pode esquecer o resto do mundo: só existe o Maiden e você.
A setlist foi, pra mim, maravilhosa. Minhas músicas favoritas foram tocadas e, preciso frisar novamente, a sensação de fazer parte de um coro de 100.000 vozes é incomparável.

Em relação ao evento, preciso dizer que achei bem melhor organizado do que em 2011. Até os funcionários e as demais pessoas envolvidas com o evento mudaram; magicamente se transformaram em pessoas extremamente – totalmente – solícitas, gentis e de boa vontade (não quis dizer que tais pessoas não existiam em 2011, apenas quero dizer que tudo melhorou 100% agora, em 2013), e aí sim você se sentia completamente bem-vindo. O festival foi pleno, gostei MUITO.

Que venha 2015.

Caí do ponto mais alto de uma montanha.

Foi o vento quem me empurrou, mas eu também não soube me segurar – e nem tinha algo para agarrar. Hipnotizado pela vista e pela sensação melodiosa de braços a me segurar, mal dei atenção à vertigem, e fui repentinamente engolido por uma tontura momentânea. Sem meu antigo e costumeiro equilíbrio, tropecei em meu próprio calcanhar. Ao encarar o abismo, tive momentos de pânico total. Foi o fim da orientação de direções, e eu já não sabia para onde ficava o chão e onde apontar para alcançar o céu. Meu coração trabalhou como nunca, bombeando sangue para cada extremidade do meu corpo; a adrenalina frenética em minhas veias. Meu cérebro não permitiu que eu raciocinasse, e eu me senti perdido. Em plena queda, a claridade do dia se foi, e eu me vi em um precipício sem fim, totalmente impotente, desacreditado de minha própria pessoa, vendo a esperança soltar meus dedos com ar de desolação e triste adeus. Esta foi a minha mais recente verdade. 

Mas justo quando, a qualquer momento, eu esperava que o chão viesse de encontro a mim, certeiro como uma flecha, implacável como um meteorito, mais mortal que o homem, percebi um vulto na escuridão. Ele se aproximou de mim com um misto de sutileza e escancarada (mas extremamente necessária) violência, deu-me um tapa no rosto e, com brilhantes olhos e aguda certeza, disse para que eu me recompusesse. Citou os grandes, os líderes, os reis, o Deus, e injetou força em minha alma. Depois disso, sussurrou um meio de me safar do temeroso fardo ao qual me via destinado a encarar. Ao terminar, colocou em minhas mãos uma corda e fechou meus dedos com muita força. 

“Agora, segure-se firme, porque o tranco vai ser pesado.”

E foi o que fiz. Durante alguns segundos, mil imagens assombrosas passaram pela minha cabeça. Meus medos zombaram de mim, riram à vontade e me desrespeitaram; deixaram-me vulnerável. Pouco antes do momento decisivo, posso até dizer, vi um rosto demoníaco me alcançando, voando em minha direção com um sorriso soturno, babando em ansiedade para me tomar. Pouco antes de me tocar, porém, foi partido ao meio por uma espada brilhantíssima, e tudo o que eu pude ver foram as asas brancas de quem a detinha. Este ser segurou a cabeça do finado demônio e disse-me: “Não te preocupes”.

Segurei a corda com ambas as mãos, fechei os olhos e confiei.

Uma coisa eu posso dizer: o tranco é diferente de tudo o que se pode imaginar. Senti meus músculos trabalharem à beira de seus limites; o coração cessou seu eterno trabalho por um instante que parecia interminável; todo o ar do pulmão se esvaiu, me deixando sem fôlego e sem capacidade de gritar; senti minha alma se segurar ao meu corpo assim como eu me segurava à corda, que se esticou, se esticou, se esticou…

Um segundo depois, fui lançado como uma bala para cima, passando por todo o corredor de escuridão que havia percorrido em queda livre. Endireitei meu corpo, lapidei minha mente, corrigi minha postura, foquei naquilo que era importante. Tudo isso, eu sabia, me manteria vivo para chegar ao topo da montanha.

Quando vi que estava perdendo a velocidade, percebi a luminosidade retornando, notei mais uma vez o céu brilhando, ouvi pássaros me saudando e respirei ar fresco novamente. Prestes a ficar inerte e voltar a cair, segurei-me no paredão de pedra como se eu tivesse garras, e os primeiros sinais de evolução me cumprimentaram.

Com mãos nuas, marquei a rocha à minha frente para não me esquecer do ponto específico onde me encontrava, e com tudo o que tinha restando, galguei meus primeiros metros rumo ao topo.

Além de mim mesmo, descobri o tempo como melhor amigo.

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