Introdução
Recentemente tive a idéia de fazer uma história composta por três capítulos, que serão postados semanalmente. Essa história tem como ponto de partida o fim do último post. Doce Sono de Anjo, onde o protagonista, após contemplar a beleza de seu amor – até então platônico – pula pela janela da casa dela e voa, podendo encontrar o Sol da manhã nascendo e iluminando a cidade.
Sobre o protagonista de todas as minhas histórias, posso dizer-lhes que é uma pessoa que ama ser romântica e ama falar coisas românticas; pensa de maneira diferente da maioria e vê beleza em tudo. Além disso, tem plena convicção de que não existe no mundo algo mais importante e delicioso do que o amor. Digo também, apesar de ser evidente, que sua inspiração, força, vontade de viver intensamente, e alegria constante deve-se ao fato de sua musa estar presente em sua vida.
Quanto ao seu amor, tento ser direto ao dizer que ela é única. Tem algo que a difere das demais. Algo inexplicável. Talvez uma simplicidade que, por incrível que pareça, atribui-lhe uma complexidade – positiva, é claro – que deixa seu amante tão intrigado e tão interessado que não pensa em nada além dela. Como pode alguém tomar-lhe tanta atenção? Ela é um constante mistério, o qual ele prefere ser envolvido a decifrar. Ela tem aqueles olhos que o tomam e o envolvem. Conseguem desarmá-lo, deixá-lo completamente entregue. Passaria horas a contemplá-los, sem que aquilo perdesse sua mágica. Volto a dizer, ela é única, e o deixa maravilhado. Pois nunca viu alguém como ela, e também duvida que algum dia ainda veja. Pois ela é os seus dias, suas tardes, suas noites e madrugadas. Verões, invernos, outonos e primaveras. Estrelas, planetas, constelações e galáxias. Acalento constante nas noites frias e solitárias; sonhos inspiradores de cada dia. Enfim, a plena beleza que todos os elementos mais belos da natureza podem ter, mas reunidos em uma só pessoa.
Agora que lhes foi esclarecido o rumo que a história tomará, com o adendo de descrições razoavelmente detalhadas dos dois pilares desse romance, apresento-lhes o primeiro capítulo dessa história. O capítulo que servirá de introdução a toda a aventura e a todo o romantismo. Espero que gostem.
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Foi aquele Sol forte e revigorante que o fez atinar para uma idéia maravilhosa. Idéia essa que poderia ser realizada na noite daquele dia, dali a algumas horas, se tudo corresse como imaginado.
Tirou o cabelo do rosto enquanto voava. Estava bastante distraído, lembrando de quando contemplou sua musa dormindo. Voando cabisbaixo, com sua mente longe dali, não pôde perceber que estava se aproximando de outro edifício.
Estava quase voando janela adentro quando, em uma fração de segundo, desviou-se dela. Pôde até ver o vulto de alguma pessoa lá dentro. Será que ela o viu?
“Droga, que descuido…” Pensou consigo mesmo. “Preciso me esconder, não dá tempo de fugir.”
Hoje era seu dia de sorte. O prédio todo tinha pequenas varandas em cada apartamento, de modo que ele poderia se esconder. Escondeu-se na de baixo, que tinha as cortinas de suas janelas fechadas.
“Agora é só esperar um pouco. Só não posso ficar muito tempo aqui.”
Olhou para as cortinas fechadas com grande receio. Esperando que a qualquer momento uma dona de casa saísse para apreciar a manhã e, dando de cara com um rapaz em sua varanda, gritasse escandalosamente.
Então, após cerca de 30 segundos, que pareceram 10 minutos e injetaram-lhe adrenalina no sangue, tomou impulso e voou como uma bala para longe. Em 5 segundos já estava bem longe do prédio, da sacada, e do medo.
Esperou a adrenalina baixar e levantou vôo até acima das nuvens. Quando só via um mar de nuvens ao seu redor, onde não podia sequer ver o chão, parou, cruzando os braços e pensou em como realizar sua idéia. Fazia uma cara de pensativo que o deixava parecendo um presidente de uma superpotência decidindo sobre os rumos de uma guerra, tamanha era a sua concentração. Afinal, pensava em algo que traria sorrisos à sua musa. E guerra nenhuma era mais importante que ela. E, aliás, nada era mais importante que ela.
E então, durante alguns minutos ele ficou ali, postura ereta, pernas juntas, braços cruzados, cabelo dançando ao vento, olhar compenetrado, o Sol batendo no lado direito de seu rosto. Quando viu que o que desejava era possível, mirou um local nas nuvens e, novamente, meteu-se por elas como uma bala, deixando um furo no céu, por onde feixes de luz passaram.
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De volta à sua casa, trocou de roupa e esperou até as 11 horas. Quando essa hora chegou, foi até onde ela estudava, e esperou ansiosamente pela sua saída.
Quando ela finalmente saiu, sua imagem novamente fez seu coração palpitar, e lembrou-se que, poucas horas atrás, a vira dormindo, submersa em sonhos.
Ele sorriu e abriu os braços para abraçá-la. Ela retribuiu o sorriso, e o abraçou fortemente. Aquele maravilhoso abraço que só ela tinha. O que faz com que ele se sinta nas nuvens, flutuando no espaço, sentindo cheiro de rosas no ar.
- Como você está? – Ele perguntou – E como foi a aula?
- Estou bem. A aula foi boa. Recebi notas de algumas provas, notas boas!
- Ótimo! Isso é muito bom. Mas não é nenhuma novidade, você é super inteligente. – Um pequeno sorriso surgiu em sua face ao dizer isso.
- Ah, obrigada! – Ela agradeceu, dando uma pequena risadinha. – E você, como está? E como foi sua aula?
Nesse momento, por mais que quisesse ser sincero, era óbvio que ele não poderia dizer: “Ah, não fui à aula, pois voei até sua casa e assisti a você dormindo a noite toda.” Mas quase o fez, hipnotizado por aqueles lindos olhos que encaravam a sua alma.
- Perdi a hora, não consegui chegar a tempo… – Foi a resposta que lhe conveio.
- Dorminhoco! – Ela disse, rindo. Quando ela ria era como se um raio o atingisse, deixando-o aceso de tanta felicidade por ver aquela alegria.
Ele riu junto, tomando suas mãos. Pensou, e falou:
- Eu estava pensando… Será que você gostaria de fazer um passeio hoje à tarde? Umas 17 horas, mais ou menos?
- Claro! Onde?
- É surpresa, mas acho que você vai gostar.
- Ah, tudo bem. Mas só me diga onde nos encontramos.
- Eu te busco na sua casa.
- Mas nós vamos de carro?
- Não, não dessa vez.
- Então como? É perto da minha casa?
- Você vai ver, vai entender. Não se preocupe, já me encarreguei de tudo.
Ela fez uma cara de quem está confusa, meio desconfiada, mas cedeu.
- Bem… Tudo bem, então.
- Certo, eu preciso resolver algumas coisas agora. Passei aqui para te ver e combinar isso com você, mas te encontro ás 17 horas, na sua casa, ok?
- Ah, tudo bem. Combinado. Te espero às 17, então.
Achou muito ruim ter de se despedir dela, mas tentou não deixar transparecer. Odiava ter de se distanciar dela. Doía, como se lhe arrancassem seu coração de súbito, sem pedir permissão; sem que ele pudesse fazer nada.
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Bem longe dali, e entre 12:00 e 17:00, ele preparou-lhe uma surpresa. Essa era a idéia que havia lhe ocorrido durante a manhã, e que agora estava quase realizada.
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Quando ainda faltavam 10 minutos para as 17:00, ele já estava em frente à casa dela, esperando. O Sol estava bem forte naquele dia. O asfalto da rua estava quente. Pensou que estava tão quente que poderia queimar as mãos caso o tocasse. Procurou por uma sombra e colocou-se debaixo dela. Não fazia tanta diferença, o calor continuava castigando, mas era melhor do que ter o Sol queimando sua cabeça, deixando seu cabelo em brasas.
Um carro muito bonito e caro passou pela rua bem na hora em que ela desceu para encontrá-lo. Só conseguiu ver as letras da placa: AMM. Não perdeu tempo olhando os números, já que sua musa estava ali, e agora podia contemplá-la novamente.
Bela. Tão bela que tomava todo o brilho do Sol para si. Tornava-se a fonte de luz na rua, e o deixava completamente apaixonado.
Cumprimentaram-se, e, logo após isso, ela perguntou para onde iriam, qual era a surpresa.
Ele tomou sua mão direita e, como um casal começaram um pequeno passeio pela rua.
- Sabe – começou ele – eu espero que hoje seja um dia especial para você. Espero mesmo, de todo o coração.
Ela o olhou com uma cara que era um misto de dúvida, confusão e curiosidade.
- Acho que você não está entendendo muito bem, afinal, continuo deixando esse clima de mistério, não é?
Ela assentiu.
- Pois então – ele continuou – acho que palavras deixariam você mais confusa. Prefiro mostrar.
- Tudo bem. Mostre então.
- Estamos quase chegando.
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O final da rua tinha uma espécie de beco meio largo e vazio, porém conservado. Ninguém passava por ali, então ele julgou ser um bom lugar.
Ao entrar no beco, foram até a metade. De onde estavam mal podiam ver os prédios da vizinhança. Ficaram frente a frente.
Nessa hora o sol estava começando a alcançar o horizonte, fazendo jorrar sua luz alaranjada por toda a cidade. Um pouco daquela luz caia sobre os olhos dela, que ficavam acesos, como se estivessem em brasa. Sua íris tinha uma cor linda, e com a luz do sol ela ficava brilhante de modo que, se observasse atentamente, podia-se ver um lindo girassol desenhado ali.
Não pôde deixar de sentir uma sensação maravilhosa naquele momento. Algumas folhas secas do outono dançavam pelo chão, movidas pelo vento suave que passava por ali, produzindo um som único que deixava tudo mais lindo.
Ficou hipnotizado por alguns momentos. Hipnotizado por toda aquela beleza na sua frente. Como poderia existir alguém assim? Por mais que a visse todos os dias, não conseguia deixar de perceber beleza em tudo nela.
- Ahm… Tudo bem com você? – Ela perguntou, com um sorriso no rosto, despertando-o de seu devaneio.
- Ah, claro. – Ele respondeu, abrindo um pouco os olhos e balançando levemente a cabeça.
Pareceu ter sonhado. Ah, mas ele não sonhou? E ainda continua sonhando. Seu sonho começa quando ele a vê, quando ele a encontra. E se pensas que o sonho acaba quando ela vai embora, pense melhor, pois o sonho permanece. Cada segundo de sua vida é um sonho. E isso, senhoras a senhores, é uma vida bem vivida. Mas não se o sonho fica só na cabeça, e sim se você os realiza, os torna realidade. E foi com esse pensamento na cabeça que ele decidiu fazer o que faria naquele dia: tornar seu sonho realidade. A principio ele hesitou, mas depois viu que sua vida nunca seria a mesma se ele desistisse. E por isso, ele não desistiu. Só posso dizer que ele nunca se arrependeu disso, e isso fez dele, sem duvida alguma, a pessoa mais feliz e sortuda do mundo.
- Me perdi um pouco nos seus olhos. – Ele continuou.
Ela não respondeu, só sorriu. Seu rosto também respondeu, ao ficar levemente corado.
Era ótimo ficar a contemplá-la, mas era hora. Olhou fixamente no fundo de seus olhos.
- Você confia em mim? – Ele perguntou ao tomar suas duas mãos.
- Confio.
- Então eu preciso que você feche os olhos e segure firme em minhas mãos. Não as solte durante sequer um segundo, não importa o que aconteça.
- Tudo bem… – O tom de sua voz não mentiu: ela sentia, sim, certo receio. Havia ali um estranhamento. Mas em nenhum momento ele sentiu falta de confiança, o que era o mais importante.
Ele fechou os olhos, se concentrou, e pensou em três coisas: Nela, em uma rosa, e em uma música.
“I just want to be with you / ‘cause living is so hard to do / when all I know is trapped inside your eyes.”
As folhas começaram a dançar em volta deles, como se um furacão começasse a surgir ali, deles. Ela não agüentou, e resolveu abrir os olhos um segundo para saber o que estava acontecendo ali. Não havia problema. Para falar a verdade, ele estava quase certo de que ela os abriria. Ao ver tudo aquilo ela ficou muito surpresa. Tinha um olhar um tanto quanto impressionado, mas em momento algum soltou as mãos, assim como ele havia pedido.
O chão começou a ficar vermelho-fogo, mas não havia calor ali senão o deles dois.
O silêncio só era quebrado pelo barulho do vento, das folhas, mas então um suave som de piano tomou-lhes a mente. Envolvia-os como seda, deixando-os cada vez mais inseparáveis
- Feche os olhos novamente, agora.
Ela ficou surpresa quando ouviu seu pedido. Como ele sabia que ela estava de olhos abertos, não sabia, mas não hesitou; sequer pensou duas vezes. Fechou os olhos. E quando ela o fez, todos os sons cessaram de súbito.
A energia fluiu dele para ela através do toque de suas mãos. E juntos eles inspiraram bem fundo. As mãos apertaram-se ainda mais. A alma dos dois conectava-se. A doçura do toque das mãos era extremamente romântica. Era como sentir-se no paraíso.
Em algum lugar do mundo, um campo de rosas floresceu iluminado pelo Sol, e ao mesmo tempo, as gotas de orvalho em suas pétalas escorreram como lágrimas.
E esse era o momento pelo qual ele esperava. Esse era o momento chave.
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Esse é o primeiro “episódio” de uma série de três. Esse dá as coordenadas para o próximo.
Gostou? Acompanhe, comente, espalhe :) Tenho certeza de que vocês vão gostar do próximo.
Autor: Rafael Mendes da Silva.
Quando o relógio marcou meia noite ele silenciosamente se levantou da cama e, ainda com as luzes apagadas, calçou seu tênis. Não queria acordar ninguém, por isso fez cada movimento com a maior sutileza possível, no escuro.
Introdução
Na mais fria, escura e solitária das noites ele ouve a voz dela.
Afrouxando o nó da gravata ele senta na praça escura. Só uma luz continua viva nos postes de iluminação, mas dando sinais de que sua vida útil está perto do fim: pisca constantemente. A má iluminação da praça, o banco quebrado e o fato de nenhuma pessoa estar presente – a não ser ele – dá à praça um clima soturno e meio sórdido. Essa praça foi antes a mais bela de todas. O Sol iluminava cada pedacinho dela. Flores nasciam nos arredores. Havia pessoas e elas sorriam. Tudo era conservado. Mas de uma hora para outra o Sol se foi, assim como a alegria. E agora ele vê o retrato de um lugar completamente destruído. Não sente sequer um pouco de medo. Seu sentimento é outro.